sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Por uma Malga de Vinho

Vinhateiro
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Hoje, mais uma vez, almocei no restaurante A Floresta. Para quem não leu um post anterior, sito na vila de Arcos de Valdevez - certamente uma das mais bonitas do nosso Portugal (mas isso são outras andanças...).
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Gosto de almoçar na "planta baixa" d'A Floresta - uma sala com ares de casa de pasto: vigas de madeira no tecto, serviço saloio (sem carácter depreciativo), clientela de todos os estratos sociais.
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A sala estava cheia, pelo que a dona do estabelecimento me convidou a partilhar a mesa com outro comensal. Excelente! - pois não quero parecer morto, como o é, segundo Jean Baudrillard (ver post de 9 de Janeiro), todo aquele que come sozinho.
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O meu conviva era meu homónimo - soube-o pelo tratamento informal de que foi alvo por parte da patroa. E pela aparência, certamente trabalhador da construção civil. Pediu vinho tinto maduro; pedi uma cerveja - apetecia-me, como se estivesse no verão. Trouxeram-me a Sagres de lei, mas, como seria de esperar num estabelecimento do povo, não me mudaram o copo de serviço - vidro para toda a bebida. Pedi de imediato um copo de fino, obviamente.
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E como o silêncio entre dois comensais é contranatura, eis o móbil para a conversa que se seguiu - a que se juntou, minutos depois, um terceiro parceiro de talher: que copo ou recipiente para que bebida?
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A conclusão maravilhosa a que chegámos, e razão de ser deste post: o vinho verde tinto deve ser bebido numa malga.
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Temos dito!
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Concordaríamos em acrescentar: a ser verde tinto, que seja da casta Vinhão.
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Apontamento final: a este propósito, lembrei-me agorinha mesmo de um comentário de um aluno meu no ano lectivo transacto - qualquer coisa no género: "em minha casa só bebemos vinho em malgas; uma malga para dois; bebo da malga do meu pai, que está à minha frente; e a minha irmã da da minha mãe." Para alguns, ainda é assim no Alto Minho - para o bem e para o mal!
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1 comentário:

Nuno disse...

Olá Rui,
frequentemente vamos tomando conhecimento da diversidade de utilizações, que por razões circunstanciais e, mas também, eminentemente práticas, foram dadas a determinados objectos. Desconhecia de todo tamanho preceito. Por aqui a dita malga tem a função que me parece ter motivado a sua génese: abrigar a sopa ou um qualquer caldo. De repente vieram-me à memória os tempos de serviço militar obrigatório pelas encostas durienses. Também por lá se bebia o carrascão numa rasca evolução da genuina peça: as sensaboronas tigelas de esmalte. Mas pegando na palavra, a sua isotérica pronuncia é de uma leveza que dá vontade de abrir uma garrafita e aferir a lógica intuitiva minhota. Vamos nessa, até porque, por aqui há quem afirme que "nem só de vinho vive o Homem, mas também..."
Abraço,Nuno