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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Croácia (Périplo 2012), Dia 1: Jantar em San Sebastián

Como tem vindo a suceder nos últimos anos, partimos de Arcos de Valdevez mais tarde do que o previsto. Desagrada-me, mas acabo por digerir a insatisfação pensando que estamos em período de descanso e que os horários somos nós que os fazemos. 10.10 da manhã e conta-quilómetros a 0.
 
Neste primeiro dia pretendíamos pernoitar perto de Avignon, o que já não seria possível. Redefinimos o objetivo para Tarbes, no Ibis local. Decidimos que nestas tiradas de largas centenas de quilómetros - de saída e chegada -, não acamparíamos. O que nos permite fazer sempre mais 300-400 quilómetros por dia e descansar um pouco melhor.
 
Quando iniciámos a travessia do País Basco, constatámos que ainda íamos com tempo para um desvio há muito adiado: jantaríamos os rissóis, bolinhos de bacalhau e afins, que preparáramos no dia anterior, num qualquer espaço agradável de San Sebastián.

Fomos surpreendidos por um mar de gente no centro da cidade e com a quase impossibilidade de estacionar nos parques subterrâneos do centro, no início da Alameda del Boulevard - tarefa que nos levou mais de meia hora. Já sabíamos que San Sebastián é uma cidade sempre em festa, mas aquela alegria contagiante que todos emanavam foi surpreendente. Assistimos a uma parada tradicional e jantámos na Bahía de la Concha ao som de um concerto rock que zurzia junto à marina. De bucho cheio, caminhámos pelo paredão e desfrutámos de um anoitecer fantástico, enquanto os locais e  veraneantes estendiam as suas toalhas para cenar a hora mais espanhola. Carpe diem!
 



 




 
Chegámos a Tarbes pouco antes da uma da manhã - ainda a tempo de descansar o suficiente para enfrentarmos outra jornada extensa. Durante este percurso final conversámos sobre as diferenças entre espanhóis e portugueses; sobre como aqueles passam - e bem - o seu tempo livre fora de casa; sobre o custo de vida; as paisagens; o urbanismo... Viajar é isto: colocar o que já conhecemos no prato de uma balança e o que vamos conhecendo no outro. E saber escolher.
 
Conta-quilómetros: 935
 
Ler: Dia 0     Dia 2

domingo, 25 de agosto de 2013

Périplo 2011, Eslovénia - Dia 15: Balanço

A última tirada desta nossa aventura à Eslovénia começou com uma visita rápida a Tarbes. O tempo estava pouco apelativo, mas nem que estivesse encontraríamos grandes motivos de interesse. O melhor que nos ocorre dizer é que Tarbes é uma cidade discreta.
 
 
Durante o dia, fizemos o balanço da viagem (ler em baixo): costumamos elencar as três ou cinco coisas/ destinos de que gostámos mais e as 3 de que gostámos menos; fazemos contas às despesas; sonhamos com o périplo do ano seguinte. Este ano, fizemos a distinção entre lugares e ações/ acontecimentos. No intervalo destas conversações, parámos numa área de descanso perto de Burgos e despachámos uma punheta de bacalhau muito lusitana, acompanhada de uma cerveja italiana de bom gosto, mas pouco fresca (não comprámos gelo para esta tirada final, pois não se justificava), de nome Poretti.
 
 
Quilometragem final: 6002 (942 nesta tirada)

Ir para: Dia 0
 
O NOSSO BALANÇO:
 
Os meus lugares preferidos: 1º Veneza; 2º Bled; 3º Mónaco; 4º Piran; 5º Tourettes-sur-Loup.
Os lugares preferidos da Lili: 1º Bled; 2º Veneza; 3º Mónaco; 4º St. Paul de Vence; 5º Lago de Sanabria.
 
As coisas que preferi fazer: 1º Beber uma Moretti em Giudecca, com a praça de S. Marcos do outro lado do canal; 2º Comer sardinhas em Izola; 3º Andar de vaporetto; 4º Remar no lago Bled; 5º Subir ao Vogel
As coisas que a Lili preferiu fazer: 1º Tomar banho/ mergular nas águas do Adriático, em Izola; 2º Andar de vaporetto; 3º Comer sardinhas em Izola; 4º Andar de bicicleta em Bled; 5º Caminhar até à cascata Slap Savica.
 
Os meus pontos negativos: 1º Mosquitos; 2º A portagem do túnel de Fréjus; 3º A humidade no ar.
Os pontos negativos da Lili: 1º Mosquitos; 2º A humidade no ar; 3º As retretes em França.
 
Despesa total (apurada em maior detalhe em casa): 2.250 euros em 15 dias, incluindo 100 euros para despesas de desgaste do automóvel. As despesas por rúbricas: gasolina: 26%; alojamento (camping e hotel): 18%; portagens: 16%; supermercado/ alimentação (inclui compras feitas à partida): 15%; refeições fora: 7%; lembranças (comes e bebes, sobretudo): 7%; transportes/ estacionamento: 4%; desgaste do automóvel: 4%; entradas: 2%; outros: 1%.
 
FIM

domingo, 21 de agosto de 2011

Périplo 2011, Eslovénia - Dia 1: uma descoberta

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Destino: Eslovénia (Bled, em particular). Outras duas paragens almejadas: Èze e Veneza. E o que a vontade e o sortilégio determinassem. Num máximo de 17 dias.
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Arrancámos às 11 da manhã, dezoito horas depois do previsto (queríamos avançar umas centenas de quilómetros no dia anterior). Sem stress. Café no termo, umas minis geladinhas na arca e algumas sandocas preparadas para os apetites verpertinos. Revelou-se a hora ideal para realizar um desvio adiado vezes sem conta, por altura dos primeiros queixumes estomacais: ao Lago de Sanabria. Uma descoberta! A confirmação de uma suspeita: um pequeno paraíso a revisitar em piqueniques familiares ou num fim de semana de campismo.
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As gentes que se avistavam em redor de mesas de pedra espalhadas pelo carvalhal à beira praia pareciam locais, sinal de que o turismo de massas não passa por aqui. Melhor ainda! Umas vozes em galego diziam que a partir de 20 de Agosto acabava-se a época balnear. O fresquinho agradável que se fazia sentir justificava-o: a altitude do lago e as montanhas em redor convidavam o outono antecipadamente.
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Retomámos a estrada, bem vigiada por brigadas de trânsito (já contabilizáramos 5 em 3-4 horas!). A Li começava a consultar os parques de campismo nas proximidades de Burgos. Conhecíamos o Cavia, mas procurávamos um mais afastado das grandes vias. Terminámos o primeiro dia de viagem no camping Camino de Santiago, na discreta Castrojeriz. Sossegadíssimo e acolhedor. Montámos a nova Quechua debaixo de choupos e cedros e sobre um relvado mole, numa parcela delimitada. Um excelente camping para pernoitas de um dia, com um castelo por sentinela.
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Ganhámos o dia ao constatar a tomada de electricidade: a malfadada fêmea de três pinos tão comum em França e para a qual ainda não encontráramos noivo em dezenas de lojas e supermercados da Iberia e de França! Não esperávamos encontrá-la em Espanha! Os campings geralmente têm os machos (com saída fêmea de dois pinos) para empréstimo sob caução, pelo que dirigi-me à recepção para salvar o jantarinho. Acabei por trazer o dito por 15 euritos - mas meu! Após indagar se não mo vendiam, pois não o conseguia encontrar em lado nenhum e tal, disseram-me que se podia comprar em ferreterías, que teriam de telefonar para saber o preço, mas que rondaria os 15 euros. Insisti e o arrozinho de sardinhas com pimentos ficou pronto em meia hora, preparado com mais entusiasmo e uma dor de cabeça a menos.
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Ao jantar, em conversas regadas por um verde da Adega de Ponte de Lima, a nota do dia: quem visita Portugal por estrada, passando pelas aldeias e vilas insalubres e descoloridas de Castela e Leão, só pode achar que somos um país rico e com muito bom gosto na construção e planeamento urbanos.
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À nossa!
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Conta-quilómetros: 521
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Ir para: Dia 0   Dia 2 
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domingo, 9 de janeiro de 2011

A viagem hesitante

Andarilho
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Seguramente, ao longo de cada uma das nossas vidas há algumas viagens falhadas: reais, fantasiosas, da volição... Delas, não interessa tanto o destino não atingido, mas sim a viagem de aprendizagem resultante.
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Em Agosto passado rumámos à Eslovénia. Hesitámos na partida, é verdade, mais por cansaço acumulado num ano de trabalho do que pelos quilómetros em perspectiva, mas lutámos contra os maus humores do espírito e lá saímos com algumas horas de atraso face ao previsto. Levávamos um percurso/ calendário de viagem gizado (17 dias), com alguma flexibilidade, mas prevendo sempre muitos quilómetros seguidos nos primeiros dias e nos últimos. Acontece que, perto de Léon, tornámos a hesitar: e se ficássemos duas noites num dos nossos parques de campismo favoritos (o El Cares, nos Picos da Europa)?
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Fomos mais fortes e acabámos por pernoitar no já conhecido Camping Elgar, em St. Jean de Luz. As gatinhas das proprietárias do parque, passados três ou quatro anos da nossa última estada, já não eram vivas, mas deixaram descendência. Estourámos as primeiras dezenas de euros em fichas e adaptadores. Bem estourados, pois não serviram. Mas a simpatia das senhoras não nos deixaram sem luz ou fome e lá jantámos sob a humidade em partículas minúsculas vinda do mar...
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Chegar o mais longe possível era o objectivo do segundo dia. Nem queríamos pensar nas infindáveis A64, A61 e A9... Fomos queimando os quilómetros empurrados a café de termo, preparado ao pequeno almoço, e memórias de outras travessias: "foi neste troço que por duas vezes íamos ficando sem gasolina!"; "do outro lado fica aquele fantástico miradouro sobre Carcassone, lembras-te?"... Numa estação de serviço, perante uma paisagem de cariz mediterrânico, estourámos mais umas dezenas de euros numa cafeteira eléctrica de isqueiro, para poder fazer café a meio das viagens. Bem estouradas, pois trouxemos uma com potência de 24V, própria para camiões! Mais uma vez, a A7, que liga Lyon a Marseille, anunciava pesadelos; ensaiámos percursos alternativos e tentámos desvios... Mas não vale a pena: puxa-se o cobertor de um lado, destapa-se do outro. Pernoitámos a uma vintena de quilómetros de Aix, na Provença, no Camping Durance Luberon. Aix-en-Provence fazia parte das cidades-alvo, cuja visita há muito planeávamos. No parque de campismo, contudo, não havia alvéolos disponíveis, pelo que acampámos na zona desportiva do parque, sem acesso a eletricidade, o que condicionava a nossa permanência por mais do que um dia. Enquanto jantávamos umas sandocas e uma salada de feijão-frade e atum, hesitávamos: visitamos Aix durante a manhã, o que significa poucos quilómetros percorridos no resto do dia, ou apontamos de manhã cedo para o lago Garda? "Logo se vê, mas olha que aquelas nuvens não prometem muito!".
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Aquela noite passada na nossa tenda de muitos anos, neste ano relegada a suplente - para estas ocasiões de pernoitas de um dia, pois a nova é uma casinha -, foi absolutamente inesquecível. Depois de um início de noite a jogar à bisca dos 9, enquanto havia luz natural, e em que o céu se acabrunhava progressivamente, começou a chuviscar mal nos preparávamos para o sono dos justos. Não durou muito. Passada uma meia hora caía-nos toda a água do céu em cima. As costuras velhas da tenda começavam a ceder... A maior trovoada das nossas vidas entrava-nos feita luz pela tenda adentro... Por volta das duas da manhã envio uma mensagem ao meu irmão: "Qual é o tempo para os próximos dias no sul de França, Veneza e Ljubljana?" Igualzinho, foi a resposta. Às quatro da manhã a tempestade amainou.
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Acordámos hesitantes, cansados. Comemos qualquer coisa e arrancámos em direcção a Aix, como se ali alguma coisa nos pudesse orientar. O tempo encoberto não nos dava luz e os arredores da cidade eram deprimentes. No fundo, a dúvida era: arriscamos em frente e com este tempo ou regressamos a Portugal. Circundámos a cidade duas vezes, à procura da saída em direcção à fronteira italiana. Não a encontrávamos. Irritado, virei o Honda em direcção à Iberia: "acampamos uma semana em Aldán, para descansar".
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Fizemos o regresso aborrecidos, desiludidos, a procurar justificações plausíveis para o insucesso, a fazer contas a seis ou sete centenas de euros esbanjadas. Alegrámo-nos um pouco na Belvédère d'Auriac, a área de repouso com a tal vista fantástica sobre Carcassone. Não nos recordamos de outra assim...
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Aproveito a paragem para olhar o mapa e decido: "Vamos fazer um percurso que nunca fizemos, para aproveitar um pouco o dinheiro já gasto: cortamos os Pirenéus por aqui." Este "aqui" apontava para uma estrada secundária que desembocaria em Puigcerdá, nos Pirenéus Catalães, atravessando o Col de la Quillane, pelos 1700 metros de altitude. O céu continuava sombrio e as estradas cada vez mais estreitas e sempre a subir. Começa a chover. E continua a chover e a ver-se muito pouco por entre a névoa. São mais as caravanas do que os carros, os poucos veículos com que nos vamos cruzando. E em estradas estreitas de montanha as caravanas tendem a parar, quando se cruzam... A descida para Puigcerdá traz-nos uma aberta: finalmente podemos ver a paisagem pirenaica na sua plenitude. "Pernoitamos aqui, num hotel?" Resolvemos continuar para sul, em busca de sol. Atravessámos o Túnel de Cadí e gostámos da paisagem. Por pouco tempo, pois recomeça a chover e escurecer intensamente e temos de pernoitar em Berga. Durante a noite, troveja ainda mais do que na noite anterior.
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Acordámos para um novo dia de chuva e a hipótese de um desvio até às praias da Comunidad Valenciana, que afloráramos, fica definitivamente posta de lado. Fizemos um trajecto de regresso conhecido de outras viagens. Almoçámos perto de Burgos: procurávamos um restaurante magnífico onde já tinha estado duas vezes, mas somos enganados por obras na estrada e acabámos num outro sensaborão. E desta vez não estávamos hesitantes! Chegámos à fronteira da Madalena ao fim da tarde, ainda dia. Em cerca de 3 mil quilómetros por Espanha e França não vimos um único incêndio. Portugal estava a arder: do Lindoso a Arcos de Valdevez, em meros 30 quilómetros, vimos 5 ou 6 incêndios, o último deles exactamente à chegada. A chegada perfeita para uma desviagem. Valeu a semana seguinte, em Aldán, na Península de Morrazo (na postagem anterior).
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O que aprendemos, afinal?
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Que a vida dos gatos é como a dos homens: curta e, por isso, deve ser bem aproveitada (com a vantagem de os gatos terem 7 oportunidades para o fazer); que nos dias de grande quilometragem, em viagens de muitos dias, pernoitaremos em hotéis, pois a idade já pesa; que não há igual ao café feito por nós, como naquele anúncio antigo da Nescafé, em que um indivíduo de camisola de gola alta branca observa o mar de dentro do seu automovel; que, quando as coisas correm mal, tendem a continuar a correr mal, não por qualquer desígnio demoníaco, mas porque a menor clarividência é como lenha para a fogueira; que, já suspeitávamos, Portugal é um país a arder: lenha não falta, mas é a inépcia dos governantes a principal acendalha; que, por fim, se hesitarmos, vale mais não sairmos, a não ser porque vamos aprender mais umas coisinhas que todos já sabem.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cabo Home, Península de Morrazo - Galiza

Andarilho
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Manhã muito cedo, pois o calor do meio-dia ameaçaria o prazer de caminhar, a clareza dos sentidos. Já aqui tínhamos vindo uma meia-dúzia de vezes, em piquenique ou para umas horas de sol na Playa de Melide, percorrendo de automóvel os caminhos de terra batida e esburacada pelas nortadas galegas - o que também tem o seu quê de aventura, em especial para as suspensões dos veículos.
Deixámos o bólide no parque de estacionamento improvisado junto ao bar que marca o ponto de partida para os 5,5 kms circulares do Cabo Home. Com tempo, muito tempo para apreciar uma das paisagens mais encantadoras da Península Ibérica, tirar fotografias, brincar com as nossas sombras, projectadas pelo sol nas escarpas, apanhar amoras... Há quanto tempo a Lili não apanhava amoras! Que bela sobremesa dariam!
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A beleza deste recanto da Península de Morrazo reside precisamente nas dificuldades de acesso. E nos horários tardios de nuestros hermanos. Já aqui estivemos várias vezes virtualmente sós até à hora de almoço, com uma praia belíssima e quase virgem só para nós e a família que explora o chiringuito ali estabelecido. O pinhal que bordeja a Playa de Melide, de face para as Islas Cíes, fornece-nos a sombra que aconchega o nosso descanso e faz saber ainda melhor o café que sai fumegante do termo preparado pouco depois do nascer do sol. É este o melhor café do mundo!
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Caminhámos até ao segundo farol do cabo, de onde se vê Vigo em toda a sua extensão e a majestosa ria homónima, pontilhada pelas bateas - viveiros de mexilhões - e entrecortada por praias apetecíveis. Algo mexe com os nossos estômagos; mas só pode ser sugestão. Os dois quilómetros finais acabarão por torná-la mais real e merecida. Tempo para um último olhar para o Atlântico, porta de muitas aventuras por escrever.
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sábado, 21 de março de 2009

Las Médulas, Paisagem d'Ouro

Andarilho
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Não muito longe do norte de Portugal, na região de El Bierzo, Ponferrada, província de León, podemos visitar uma das paisagens mais surpreendentes da Península Ibérica: Las Médulas - uma antiga exploração de ouro a céu aberto da época romana, classificada Património Cultural da Humanidade em 1997.
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Aconselha-se vivamente a realização do percurso pedestre de cerca de 3 quilómetros que parte do centro interpretativo, na aldeia homónima, e nos conduz por entre um majestoso bosque de castanheiros e carvalhos até às minas de La Encantada e La Cuevona. Durante o trajecto temos o privilégio de apreender em cada passada a dimensão colossal do processo de exploração aurífera que aqui ocorreu nos inícios do primeiro milénio depois de Cristo. O monte Medilianum, que ocupava esta paisagem quase extra-terrestre, foi integralmente desfeito por sucessivas enxurradas de água controladas pelos seus exploradores, armazenada metodicamente para o efeito através da captação por canais em altitude que atingiam a extensão de 300 quilómetros. Uma maravilha do engenho humano..


A não perder, também, a vista geral sobre Las Médulas proporcionada pelo Miradouro de Orellán, junto a uma pequena aldeia com o mesmo nome e acessível por estrada a poucos quilómetros de distância. Será o ponto alto de um passeio memorável, como podem documentar estas duas últimas fotografias. Se feito no inverno, o vento frio que sopra das montanhas em redor ajudará a memorizar na nossa pele a visão extraordinária que se nos depara.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Parque Natural e Nacional de Doñana

Andarilho
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Uma visita ao Parque Natural e Nacional de Doñana, na província de Huelva, junto à foz do Guadalquivir, será seguramente uma das experiências mais gratificantes e inesquecíveis da vida de qualquer viandante.
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O acesso ao Parque Natural é relativamente aberto, sendo possível circular com liberdade pelas poucas estradas principais e muitos caminhos rurais que o entrecortam. A não perder uma passagem por El Rocío, um pueblo de ruas em areia, não calcetadas, conhecida pela Ermida da Virgen del Rocío, venerada em todo o mundo e responsável pela maior romaria de Espanha. Aqui, podemos observar o que resta da Marisma del Rocío nos meses de verão, um ecossistema sazonal que acolhe milhões de aves migratórias, em especial nos meses de inverno e primavera.
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O acesso ao Parque Nacional, por sua vez, é muito limitado e só se pode efectuar numa das visitas guiadas realizadas pela Cooperativa Andaluza Marismas del Rocío, a partir do Centro de Visitantes "El Acebuche", a poucos quilómetros de Matalascañas. É uma área de protecção integral e provavelmente o maior espaço natural da Europa, de uma beleza extraordinária. As visitas realizam-se em veículos 4x4 com capacidade para 20 pessoas e têm a duração de 4 horas, num percurso total de cerca de 70 quilómetros pelo sistema de dunas móveis, a marisma, a margem direita do Guadalquivir e 30 quilómetros de praias virgens. Pagámos 25 euros, o que poderá parecer muito, mas garantimo-vos ter sido o dinheiro mais bem gasto das nossas vidas.
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A aventura começa logo nos primeiros metros, após a passagem pelo posto de controlo (o Parque Nacional está todo cercado) à saída de Matalascañas, o último reduto do turismo de massas na costa de Huelva. A amplitude do sobe e desce das suspensões do veículo no acesso à linha de praia é tal que arranca de todos genuínos gritos de prazer e espanto, num prenúncio de 4 horas de pura adrenalina. Os primeiros 15 quilómetros são feitos junto à água, com passagem por meia dúzia de cabanas de pescadores artesanais - o único vestígio da presença humana. A quantidade de lixo deixado pelas ondas do mar espanta o grupo de holandeses, franceses, espanhóis e dois portugueses que enchem o veículo. O nosso guia, o simpático Gonzalo, foi contundente: se a praia fosse limpa todos os dias - uma hipótese quase académica, devido à extensão da face marítima do parque: 30 quilómetros -, todos os dias a encontraríamos cheia dos dejectos da humanidade. Os sacos plásticos foram letais para as 3 tartarugas que encontrámos em todo o percurso.
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Inflectimos para dentro do parque, afastando-nos do mar e percorrendo por vários quilómetros um sistema de dunas extraordinário, que avança para o interior, pela força da água e dos ventos, a um ritmo de 6 metros por ano. Entre as dunas gigantes desenvolvem-se pequenos bosques de pinheiros e mato, denominados "currais". Estes acabam por ser inexoravelmente engolidos pelo avanço das dunas e renascem na cauda de uma e a frente de avance de outra, num ciclo primordial.
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As dunas acabam na marisma: uma planície argilosa sem fim, seca e fracturada pelo calor intenso. Este, ao longe, no infinito, provoca uma miragem de água. Esta secura é provisória. Com a chegada da época das chuvas, transforma-se e enche-se de vida. Mas não se julgue que esta desaparece com o verão: na fronteira entre a marisma e o fim do complexo de dunas forma-se uma linha de vegetação que retém humidade suficiente para a sobrevivência de inúmeras espécies: vimos cervos e gamos, javalis, cavalos, gado autóctone, lebres, uma águia imperial... Só não vimos o lince ibérico - mas ainda bem! Deixemo-lo procriar e multiplicar-se nos recantos dos cotos...
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Parámos junto à margem direita do Guadalquivir, limite oriental e natural do parque, com Sanlúcar de Barrameda a um relance do olhar, na província de Cádiz. Em poucos minutos chegamos de novo à praia, junto à foz do quarto maior rio da Península Ibérica. Passámos por várias patrulhas da Guardia Civil e o Gonzalo especula: "o Zapatero deve estar aqui de férias; costuma vir para Huelva e passa as tardes na praia do Parque Nacional." Quem sabe, sabe: alguns quilómetros depois, outra patrulha ordena aos 4x4 (nesta tarde, saíram 5, sempre distanciados por várias centenas de metros) que se afastem da beira-água e inflitam para o ponto alto da praia; um pouco à frente, sentados em cadeiras de praia, de face para o mar e protegidos por um jipe e vários agentes, lá estavam o Primeiro espanhol e a companheira. Boa vida! O rolo da minha câmara, infelizmente, já se tinha acabado; mas não foi pelo político que o lamentei: a meio dos trinta quilómetros deste percurso final junto à água (que o Gonzalo fez questão de percorrer a 40 quilómetros/ hora, num ziguezague vertiginoso e memorável) deparámo-nos com o momento mais terno e extraordinário de todos: uma mãe javali tinha descido das dunas à linha de água em busca de "alimento fácil" (carcaças de vida marinha, explicou o Gonzalo); mas não vinha só: atrás de si, dois javalizinhos cambaleavam, aprendendo a vida e desfrutando de uma liberdade protegida.
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