sábado, 27 de agosto de 2011

Périplo 2011, Eslovénia - Dia 5: os gatos sabem-no

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Começámos o dia um pouco mais tarde do que o habitual, bem dispostos, pois o tempo fantástico do dia anterior prometia continuar. A primeira tarefa do dia consistiu em... mudar a água ao bacalhau. Não, não se trata de uma variante do "mudar a água às azeitonas", mas sim do seu significado literal e tão tradicional na cozinha portuguesa: desde Le Mas d'Azil que trazemos uma fantástica posta de bacalhau, do graúdo, em demolha, dentro de um tupperware que colocamos na arca, pois é em água fresquinha que ele fica bem. Logo à noite virá com todos à nossa mesa. Ei-la, na primeira demolha, ainda tímida e, por efeito óptico, mais pequena do que realmente era e se tornou:
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O programa do dia consistia de um pequeno percurso, menos citadino, mais em contacto com a natureza, culminado, ao fim da tarde, com um mergulho refrescante na piscina do parque. Dirigimo-nos para as Gorges du Loup, a noroeste de Vence, mas andamos apenas meia-dúzia de quilómetros, pois somos atraídos, como para um precipício, pela vila de Tourrettes-sur-Loup:
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Que diferença para com Saint-Paul! Da mesma dimensão, com características semelhantes, mas muito mais "terrena": os locais a jogarem boules, em espaços delimitados para o efeito, entre duas fileiras de árvores; dois carteiros a distribuirem cartas, com familiaridade; os gatos na rua, toda deles, notoriamente bem amados (em muitas portas e janelas vimos recipientes para a comida e para a água); algum comércio destinado ao turismo, mas menos posh. Um mimo! Este sim, já poderia ser o nosso mundo.
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Não incomodem, p.f.!
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Continuámos o passeio em direcção às Gorges du Loup, que não nos surpreendem. Visitámos umas quedas de água anunciadas à beira da estrada, com entrada cobrada a 1 euro; devíamos ter desconfiado: um casal francês olhava em volta, procurando-as, e para nós, que olhávamos em volta, procurando-as, e como o fio de água a descer quase em degraus por entre as rochas não convenceu, largaram um insuspeito Vive la France! Pouco depois fizemos um desvio em direcção a Gourdon, que havíamos avistado, lá em cima, isolada de tudo. Que descoberta! Que vistas sobre o Vallée du Loup, dos seus 760 metros de altitude (não parece muito, mas o Mediterrâneo está apenas a 10 quilómetros de distância em linha recta)!
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Gourdon é considerada uma das Plus Beaux Villages de France e é necessário estar lá para perceber por quê: tem o tamanho de uma aldeia pequena, debruçada sobre um vale vasto e rodeada por ciprestes, figueiras e carvalhos; não fosse o turismo e seria o local perfeito para quem quisesse isolar-se do mundo estando, ao mesmo tempo, perto de tudo. Regressámos à estrada, mas apenas por um quilómetro, pois já tínhamos escolhido o lugar para almoçarmos ao passarmos por aqui uma hora e meia antes: uma espécie de parque de lazer pouco equipado (com menos gente, por isso) e com vistas soberbas sobre o vale:
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O melão que me vêem a cortar na foto veio de Portugal; escolhi-o com carinho para que estivesse no ponto passada uma semana: que maravilha, meus amigos! E que bem soube aquele Nescafé preparado de manhã e ainda quentinho, naquele espaço tão tranquilo e paradisíaco! Foi um dos momentos mais agradáveis da viagem até ao momento; procuraríamos repeti-lo.
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De volta à estrada, encetámos o regresso ao parque, via Vence, que tínhamos deixado para o fim dos nossos dias na Provença. No trajecto, passámos por Coursegoules e pelo árido Col de Vence, que contrastava, por isso, com todo o percurso realizado pelas Gorges du Loup.
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Em Vence comprovámos o estatuto dos gatos na Provença, e nos Alpes-Maritimes em particular. Creio que alguns, até, de tão gordos, devem ser pagos a ração para preguiçarem por entre os souvenirs, que assim nos parecerão mais giros e menos caros. A cidade velha visita-se rapidamente e assemelha-se ao que já tínhamos visto em Saint-Paul, mas menos elitista. Notámos o mesmo cuidado com as janelas e varandas floridas, as portadas de cores diferentes de casa para casa, de andar para andar, tudo contribuindo para uma sensação de bem-estar e de savoir vivre. Visitámos a catedral, onde vimos um mosaico lindíssimo de Marc Chagall, junto à pia baptismal. Numa ruela próxima, fomos atraídos por uma peixaria e pelos vários petiscos expostos: "E se levássemos um pouco daquele polvo, para acompanhar o bacalhau?" Parecia estar temperado apenas com azeite e ervas da Provença; perguntei se tinha vinagre, de que não gosto, mas a simpatia do senhor ou o meu domíno fantástico do francês não foram suficientes para extrair uma conclusão. Daí que arriscássemos a provar cento e poucos gramas daquela especialidade por 5 euros e 52 cêntimos!
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Chegámos a tempo do tão ansiado mergulho na piscina. A água não é propriamente o nosso elemento, mas, com 30º graus, quem não gosta de refrescar a pele? E abriu-nos o apetite para o fantástico bacalhau com grão e batata cozidos, acompanhados de salada de tomate e pepino e das indispensáveis azeitonas; precedidos, claro, pelo tal polvo-numa-espécie-de-vinagrete!
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Nota do dia: com excepção dos casais mais idosos, é raro verem-se outros sem filhos; na verdade, as famílias francesas, belgas e holandesas (em particular estas) que vemos nos parques de campismo e pelos locais que visitamos, são constituídas por 2, 3 e 4 filhos, geralmente de idades muito próximas, provando que é possível sair com a canalha mesmo em situações aparentemente mais trabalhosas e menos confortáveis. Eles tomam conta uns dos outros!
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Conta-quilómetros: 2037 (77 nesta etapa)
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Périplo 2011, Eslovénia - Dia 4: vida endinheirada

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Não imaginávamos que a Provença e a Côte d'Azur pudessem ser tão... caras. Mas as vivendas que salpicam as colinas em redor de Vence, Cannes e Nice justificam-no: quem tem dinheiro para aqui viver (mais ainda, se tiver casa de férias), pode bem pagar os preços que se praticam por todo o lado, como aqueles limões que vimos em Cannes a 5.20 o kilograma (ai se a avó da Li os visse, com o limoeiro dela a vergar-se ao peso dos seus frutos!) ou as sandálias em saldo a 230.00... Para não falar nos alhos a 7.60, carvalho!
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Mas não foi por aí que começámos o primeiro dia de estafa. Sim, porque há que aproveitar bem todos os minutos se queremos justificar tantos quilómetros percorridos. Afinal, para além da sorte de termos feito check in no parque de campismo no limite da hora e da sua capacidade, constatámos que está muito bem equipado e melhor situado, a menos de uma mão cheia de quilómetros de Saint-Paul de Vence, que nos recebe de manhãzinha.
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Em Sait-Paul e arredores o metro quadrado de terrinha paga-se com 10 mil eurecos! Façam as contas ao preço de uma casa de banho (e só o espaço que ocupa)! É o resultado de ter sido e ser uma cidade de pintores e artistas, um burgo medieval muito bem preservado e de ter um clima agradabilíssimo durante todo o ano. Para o turista remediado, duas horas são suficientes para percorrer as suas vielas empedradas, apreciar as janelas floridas e respirar fundo o ar discretamente perfumado  pela vegetação mediterrânica. O suficiente para sentir uma pontinha de inveja, passageira, que o nosso mundo não é este.
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E então descemos a Cannes, depois do almoço. Nunca pensei que o GPS me pudesse algum dia ser de tão grande ajuda, pois sempre me orientei bem por mapas e com o sol e as estrelas. Só este ano decidimos adquiri-lo, mais por vontade da Li (imaginem por quê)... Mas dou a mão à palmatória: em centros urbanos ou em zonas com muitas estradas e estradinhas, como foi o caso, o bicho pode ser bastante útil, mesmo que contrariemos (ou sintamos vontade de contrariar) a coitada da Catarina...
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Que dizer de Cannes, para além de cara? Cheia de vida, colorida; iates e iates de fazer cair o queixo; a cor do mar de um azul esverdeado inconfundível ("podias ter dito que a água era desta cor; podia ter trazido o biquini!", disse a Li, quase a faiscar!).
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Não, não vimos qualquer actor ou actriz a exibir a sua elegância ou tique de superioridade. Não precisávamos disso para ter a certeza de não desejarmos aqui voltar. Não nos interpretem mal: Cannes é agradável para um passeio de meio-dia, mas pouco mais do que isso; há centenas de outras paragens tão ou mais bonitas e muito mais simples e genuínas. Estivemos cá, gostámos, mas não o suficiente para voltar, pois a vida é curtinha e o mundo é muito muito grande.
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Por isso, ao fim da tarde, regressámos a Èze. Tínhamos grandes expectativas para a visita a esta vila medieval alcandorada sobre o mar. Podemos dizer que nos pareceu mais um museu que uma entidade viva: tudo está muito bem preservado e embelezado, mas viverá alguém aqui realmente? A maior parte das casas pareciam pertencer aos complexos das unidades hoteleiras ali instaladas ou utilizadas pela restauração e lojas de artesanato e moda. É impossível ficar indiferente à beleza das suas ruas e dos seus candeeiros, mas ficámos desapontados com o facto de não termos pontos de observação abertos sobre o mar e a costa, a não ser do restaurante de um hotel ou do jardim botânico instalado no topo da vila, com entrada a 5 euros por pessoa. Como forma de protesto, trocámos a visita por duas 1664, de 20 cl, a 3.50 cada: poupámos 3 euritos e refrescámos a alma.
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Ao descermos do Le Nid d'Aigle, fazendo contas ao centilitro da cerveja, registámos dois momentos agradáveis. O primeiro sintetiza tudo o que acabei de escrever sobre Èze: uma rua com 3 manequins vestidos de branco, a que não podiam faltar 3 pessoas reais também de branco, para que, tal como Èze, tudo parecesse perfeito. E o outro, para nos tirar um sorriso: uma montagem feliz de uma loja de artesanato.
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Regressámos para a nossa caldeirada de peixe, que compráramos em Cannes com carteira de estrela de cinema. Devia ter sido do preço, pois ficou deliciosa... O final perfeito para um dia em cheio, apesar de tudo.
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Nota do dia: comemos peixe com regularidade em Portugal, mas está tão baratinho e acessível - e é tão fresquinho! - que vamos comer ainda mais, antes que se acabe (perdoem-nos quem ache que está caro; é verdade que, para o que ganhamos, estará, mas é daquelas coisas que só valorizamos quando viajamos - é a nossa maior riqueza!).
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Conta-quilómetros: 1960 (151 nesta etapa)
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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Périplo 2011, Eslovénia - Dia 3: uma decepção

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Grrr... Mais uma noite de chuva e nova manhã acabrunhada. Menos para esta amiga, que saiu de passeio com a humidade caída do céu e se apresentou na sala da nossa tenda (aberta, sem base) à hora do pequeno almoço. Não se mexeu dali, mesmo enquanto desfazíamos a casota. E ali ficou, dizendo au revoir, mes amis.
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Começámos a manhã com uma visita rápida a Mirepoix, uma pequena cidade antiga reconstruída em finais do século XIII, após uma inundação que a varreu por completo. As arcadas em madeira em redor da Place de Couverts e as suas casas e portadas coloridas não deixam ninguém indiferente. Não fosse a manhã estar tão cinzenta e a diversidade de cores seria bem mais evidente. Apesar da  exploração turística notória das suas valias, podemos observar o dia-a-dia dos locais, o que não acontece em muitas outras localidades, que mais se parecem a bonecas enfeitadas. Vale a pena o desvio para quem atravesse o sul de França sem muita pressa.
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Entre Mirepoix e Carcassonne
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Retomámos o caminho pouco antes do almoço. Antes de entrar na A61 tentámos atestar o depósito numa bomba de gasolina do Carrefour (ou seria do Leclerc?). Uma daquelas estações de serviço sem pessoal, com pagamento por cartão bancário. Bom, não há solução! Os cartões bancários portugueses (de débito e de crédito, seja qual for a entidade emissora) não parecem ser aceites nestes terminais de pagamento automático, como já havíamos constatado anteriormente. Por cautela, quando viajarem por França (especialmente aos domingos, se fora das auto-estradas), procurem ter sempre uma reserva para 100-200 quilómetros antes de começarem a procurar uma bomba de gasolina. Podem crer que esta precaução ser-vos-á muito útil.
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O sol começa a espreitar ao chegarmos ao Mediterrâneo. Um bom prenúncio para os quilómetros seguintes, pois pela primeira vez nesta altura do ano não apanhámos engarrafamentos significativos na A9 e na A54. Atravessámos a Provença com poucas paragens, pois estávamos algo apertados de tempo para chegar ao parque de campismo que tinha escolhido antecipadamente para pernoitarmos durante 3 a 4 noites (Les Romarins), na Grande Corniche, perto da vila de Èze, com uma vista fantástica sobre o Mediterrâneo, semelhante a esta, com Saint-Jean-Cap-Ferrat a entrar pelo mar adentro:
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Que decepção! Tirando o privilégio de ver estas paisagens fantásticas, o facto de não termos encontrado o parque de campismo deixou-nos realmente desiludidos. Telefonei para o camping e dava-me a indicação de número não atribuído; demos voltas e mais voltas e nada, nem sequer uma placa de indicação. Teria fechado? Especulávamos: "com estas vivendas todas em redor, devem ter comprado o terreno para construção." Estávamos desnorteados, à procura de outros parques ali perto, já tarde para fazer check in numa zona tão turística. Os mais próximos pareciam ficar já em Itália, o que estava fora dos nossos planos, pelo menos para agora; por isso apontei para Vence, onde de certeza haveria vários.
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Com alguma sorte, chegámos a um parque nos arredores de Vence (Domaine de la Bergerie), em La Sine, a meia centena de quilómetros de Èze, 10 minutos antes de fechar e quase quase cheio (e contrariando as instruções da Catarina - numa postagem próxima, um parágrafo sobre a Catarina e o GPS). Ficaremos 3 ou 4 noites. A passagem por Nice e Cannes e as colinas em seu redor abriram-nos o apetite; também queremos voltar a Èze e mil e outras coisas, como encher o bucho, que nesta noite foi entretido com uma massada de frango. E que bem soube!
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Nota do dia: em etapas de grande distância, articular o maior número de quilómetros com a chegada atempada a um parque de campismo pode ser um exercício díficil. Já o sabíamos, mas não temos emenda.
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Conta-quilómetros: 1809 (681 nesta etapa)
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Périplo 2011, Eslovénia - Dia 2: baptismo

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Está abençoada! Sem que ninguém o previsse, trovejou e choveu abundantemente durante a madrugada. Como de costume, a Li só se deu conta de manhã, quando a informei do trabalho extra que teríamos ao arrumar a tralha no bólide. Fez-nos lembrar a má experiência do ano passado, mas, por outro lado, tenda nova e abençoada, viagem carimbada! Que assim seja!
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Da etapa deste segundo dia não se esperava que resultassem grandes experiências de viagem, pois queríamos sobretudo somar quilómetros. Um ligeiro atraso matinal, resultante de tentar arrumar a tenda o mais seca possível, condicionou um pouco esse desígnio. Mesmo acordando às 7 da manhã, com a preparação do pequeno almoço, de sandes e café para a viagem, a higiene pessoal e o arrumar cuidado e por ordem de todas as coisas, só arrancámos pelas 9.30. Nestas viagens grandes, em que a bagageira do carro vai atulhada, a organização é fundamental: tirar e colocar as coisas pela mesma ordem; deixar no banco de trás apenas aquilo que não chame a atenção; não deixar nada na bagageira que implique o abrir e fechar da mesma durante o dia... Por isso, nos primeiros dias, demoramos sempre um pouco mais no desenvolvimento destas rotinas.
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O céu entreabriu-se à medida que nos aproximámos do País Basco, que nos dá sempre muito prazer atravessar, pela mudança abrupta de paisagem. A primeira paragem em França fizémo-la numa área de serviço já nossa conhecida, em que se presta homenagem ao Tour de France e às fantásticas etapas pirenaicas.
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Sentimo-nos encorajados pelo seu esforço; e não só: a Li desabafa - "Vão nus!"
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Ao aproximarmo-nos de Toulouse, decidimos sair da A64, em direcção a Foix. Procuraríamos um parque de campismo perto de Mirepoix, que pretendíamos conhecer (apesar de nenhum guia nem o GPS apontar a existência de algum na cidade). Estávamos algo cansados de uma primeira noite menos bem dormida, o que é normal nestas ocasiões. Antes de Foix, resolvemos cortar por uma estrada municipal, que, em teoria, encortaria a distância até Mirepoix. Um trajecto bonito, que nos conduziu até Le Mas d'Azil, onde fomos surpreendidos por uma gruta natural gigantesca, aproveitada para a construção da via de acesso à vila. Um momento espectacular, com as paredes superiores da gruta, onduladas, menos próximas do tejadilho do que aparentaram durante a travessia.
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Perto de Le Mas d'Azil
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Acabaríamos por acampar ali. Depois de atravessarmos a vila, deparámos com um parque de campismo à face da estrada (Le Petit Pyrénnéen), ao longo do rio. Revelou-se um parque muito agradável, em que os responsáveis não pareciam muito preocupados com questões formais. Acampámos sobre um relvado imaculado, ainda com o sol a queimar a pele e a fazer escorrer o suor - pelo labor de pôr  a nossa casinha de pé. Facto placado imediatamente com duas ou três minis majestosas, ainda de produção nacional.
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Ao jantar, um bife do lombo grelhado, acompanhado por arroz seco e saladinha de feijão frade. Também se bebeu bem, pois claro, ao mesmo tempo que, ao longe, se anunciava nova trovoada. "Mmm, está a perseguir-nos!"
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Nota do dia: os preços em Espanha (de qualquer tipo de bens e serviços) aproximam-se cada vez mais dos nossos. Ou será o contrário?
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Conta-quilómetros: 1128 (627 nesta etapa)
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domingo, 21 de agosto de 2011

Périplo 2011, Eslovénia - Dia 1: uma descoberta

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Destino: Eslovénia (Bled, em particular). Outras duas paragens almejadas: Èze e Veneza. E o que a vontade e o sortilégio determinassem. Num máximo de 17 dias.
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Arrancámos às 11 da manhã, dezoito horas depois do previsto (queríamos avançar umas centenas de quilómetros no dia anterior). Sem stress. Café no termo, umas minis geladinhas na arca e algumas sandocas preparadas para os apetites verpertinos. Revelou-se a hora ideal para realizar um desvio adiado vezes sem conta, por altura dos primeiros queixumes estomacais: ao Lago de Sanabria. Uma descoberta! A confirmação de uma suspeita: um pequeno paraíso a revisitar em piqueniques familiares ou num fim de semana de campismo.
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As gentes que se avistavam em redor de mesas de pedra espalhadas pelo carvalhal à beira praia pareciam locais, sinal de que o turismo de massas não passa por aqui. Melhor ainda! Umas vozes em galego diziam que a partir de 20 de Agosto acabava-se a época balnear. O fresquinho agradável que se fazia sentir justificava-o: a altitude do lago e as montanhas em redor convidavam o outono antecipadamente.
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Retomámos a estrada, bem vigiada por brigadas de trânsito (já contabilizáramos 5 em 3-4 horas!). A Li começava a consultar os parques de campismo nas proximidades de Burgos. Conhecíamos o Cavia, mas procurávamos um mais afastado das grandes vias. Terminámos o primeiro dia de viagem no camping Camino de Santiago, na discreta Castrojeriz. Sossegadíssimo e acolhedor. Montámos a nova Quechua debaixo de choupos e cedros e sobre um relvado mole, numa parcela delimitada. Um excelente camping para pernoitas de um dia, com um castelo por sentinela.
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Ganhámos o dia ao constatar a tomada de electricidade: a malfadada fêmea de três pinos tão comum em França e para a qual ainda não encontráramos noivo em dezenas de lojas e supermercados da Iberia e de França! Não esperávamos encontrá-la em Espanha! Os campings geralmente têm os machos (com saída fêmea de dois pinos) para empréstimo sob caução, pelo que dirigi-me à recepção para salvar o jantarinho. Acabei por trazer o dito por 15 euritos - mas meu! Após indagar se não mo vendiam, pois não o conseguia encontrar em lado nenhum e tal, disseram-me que se podia comprar em ferreterías, que teriam de telefonar para saber o preço, mas que rondaria os 15 euros. Insisti e o arrozinho de sardinhas com pimentos ficou pronto em meia hora, preparado com mais entusiasmo e uma dor de cabeça a menos.
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Ao jantar, em conversas regadas por um verde da Adega de Ponte de Lima, a nota do dia: quem visita Portugal por estrada, passando pelas aldeias e vilas insalubres e descoloridas de Castela e Leão, só pode achar que somos um país rico e com muito bom gosto na construção e planeamento urbanos.
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À nossa!
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Conta-quilómetros: 521
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sábado, 20 de agosto de 2011

Périplo 2011 - Eslovénia

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Mais um périplo europeu finalizado: 15 dias bem preenchidos em 6002 quilómetros de estrada. Um pouco menos cansativos que o habitual, talvez pela satisfação de termos atingido um objectivo adiado (esta viagem à Eslovénia já havia sido ensaiada o ano passado, como relatado nesta postagem). Nos próximos dias publicarei uma espécie de diário de bordo, que espero seja inspirador para outros adeptos do campismo e de férias pela estrada fora - as melhores de todas: fisicamente cansativas mas espiritualmente libertadoras. A receita perfeita para nos sentirmos realmente vivos.
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Boas viagens!
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Mapa elaborado com o auxílio do sítio Mappy e do programa Paint (clicar na imagem para uma visualização mais precisa)
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Ir para: Dia 1
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tons de Duorum

Enólogo dos Tesos
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Notas prévias: o autor destes dislates percebe tanto de vinhos como de grego moderno, ou seja: o suficiente para não se perder nas ruas de Atenas (e com a ajuda de um mapa) ou para não morrer de fome bruta; por outro lado, o texto do Enólogo dos Tesos que precedeu estas palavras é o que apresenta, sistematicamente, a par de um outro da coluna Aqui Bem Se Come, relativo ao restaurante A Cabana, na Apúlia, o maior número de leituras no Viandante. Dir-se-ia que estão bem um para o outro. Misteriosamente...
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À mesa, hoje, tivemos uma garrafita de apresentação sóbria: Tons de Duorum, 2009, tinto. Uma visita recorrente, à medida da bolsa familiar e merecedor do carinho que prestamos a cada prato confeccionado neste lar. O Tons só pode ter sido concebido num dia de estio, abrasador e solarengo: tem um nariz de muita fruta, no limite do maduro, das compotas; e rosas vermelhas, pujantes de cor. Na boca é sobretudo floral, intenso e prolongado. É no palato que a sua origem duriense se nota mais intensamente. E na cor, de um Burgundy profundo, espesso. Para sobremesa acompanhou umas rabanadas de Fevereiro extraordinárias, receita de mãe e mãos de esposa. Um casamento perfeito em dia de S. Valentim.
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Na maioria das superfícies comerciais não ultrapassa os 4 euros. Plenamente justificados, se se consumir entre os 16 e os 17º a acompanhar pratos de carne ou sobremesas sublimes. À nossa!
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domingo, 9 de janeiro de 2011

A viagem hesitante

Andarilho
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Seguramente, ao longo de cada uma das nossas vidas há algumas viagens falhadas: reais, fantasiosas, da volição... Delas, não interessa tanto o destino não atingido, mas sim a viagem de aprendizagem resultante.
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Em Agosto passado rumámos à Eslovénia. Hesitámos na partida, é verdade, mais por cansaço acumulado num ano de trabalho do que pelos quilómetros em perspectiva, mas lutámos contra os maus humores do espírito e lá saímos com algumas horas de atraso face ao previsto. Levávamos um percurso/ calendário de viagem gizado (17 dias), com alguma flexibilidade, mas prevendo sempre muitos quilómetros seguidos nos primeiros dias e nos últimos. Acontece que, perto de Léon, tornámos a hesitar: e se ficássemos duas noites num dos nossos parques de campismo favoritos (o El Cares, nos Picos da Europa)?
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Fomos mais fortes e acabámos por pernoitar no já conhecido Camping Elgar, em St. Jean de Luz. As gatinhas das proprietárias do parque, passados três ou quatro anos da nossa última estada, já não eram vivas, mas deixaram descendência. Estourámos as primeiras dezenas de euros em fichas e adaptadores. Bem estourados, pois não serviram. Mas a simpatia das senhoras não nos deixaram sem luz ou fome e lá jantámos sob a humidade em partículas minúsculas vinda do mar...
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Chegar o mais longe possível era o objectivo do segundo dia. Nem queríamos pensar nas infindáveis A64, A61 e A9... Fomos queimando os quilómetros empurrados a café de termo, preparado ao pequeno almoço, e memórias de outras travessias: "foi neste troço que por duas vezes íamos ficando sem gasolina!"; "do outro lado fica aquele fantástico miradouro sobre Carcassone, lembras-te?"... Numa estação de serviço, perante uma paisagem de cariz mediterrânico, estourámos mais umas dezenas de euros numa cafeteira eléctrica de isqueiro, para poder fazer café a meio das viagens. Bem estouradas, pois trouxemos uma com potência de 24V, própria para camiões! Mais uma vez, a A7, que liga Lyon a Marseille, anunciava pesadelos; ensaiámos percursos alternativos e tentámos desvios... Mas não vale a pena: puxa-se o cobertor de um lado, destapa-se do outro. Pernoitámos a uma vintena de quilómetros de Aix, na Provença, no Camping Durance Luberon. Aix-en-Provence fazia parte das cidades-alvo, cuja visita há muito planeávamos. No parque de campismo, contudo, não havia alvéolos disponíveis, pelo que acampámos na zona desportiva do parque, sem acesso a eletricidade, o que condicionava a nossa permanência por mais do que um dia. Enquanto jantávamos umas sandocas e uma salada de feijão-frade e atum, hesitávamos: visitamos Aix durante a manhã, o que significa poucos quilómetros percorridos no resto do dia, ou apontamos de manhã cedo para o lago Garda? "Logo se vê, mas olha que aquelas nuvens não prometem muito!".
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Aquela noite passada na nossa tenda de muitos anos, neste ano relegada a suplente - para estas ocasiões de pernoitas de um dia, pois a nova é uma casinha -, foi absolutamente inesquecível. Depois de um início de noite a jogar à bisca dos 9, enquanto havia luz natural, e em que o céu se acabrunhava progressivamente, começou a chuviscar mal nos preparávamos para o sono dos justos. Não durou muito. Passada uma meia hora caía-nos toda a água do céu em cima. As costuras velhas da tenda começavam a ceder... A maior trovoada das nossas vidas entrava-nos feita luz pela tenda adentro... Por volta das duas da manhã envio uma mensagem ao meu irmão: "Qual é o tempo para os próximos dias no sul de França, Veneza e Ljubljana?" Igualzinho, foi a resposta. Às quatro da manhã a tempestade amainou.
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Acordámos hesitantes, cansados. Comemos qualquer coisa e arrancámos em direcção a Aix, como se ali alguma coisa nos pudesse orientar. O tempo encoberto não nos dava luz e os arredores da cidade eram deprimentes. No fundo, a dúvida era: arriscamos em frente e com este tempo ou regressamos a Portugal. Circundámos a cidade duas vezes, à procura da saída em direcção à fronteira italiana. Não a encontrávamos. Irritado, virei o Honda em direcção à Iberia: "acampamos uma semana em Aldán, para descansar".
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Fizemos o regresso aborrecidos, desiludidos, a procurar justificações plausíveis para o insucesso, a fazer contas a seis ou sete centenas de euros esbanjadas. Alegrámo-nos um pouco na Belvédère d'Auriac, a área de repouso com a tal vista fantástica sobre Carcassone. Não nos recordamos de outra assim...
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Aproveito a paragem para olhar o mapa e decido: "Vamos fazer um percurso que nunca fizemos, para aproveitar um pouco o dinheiro já gasto: cortamos os Pirenéus por aqui." Este "aqui" apontava para uma estrada secundária que desembocaria em Puigcerdá, nos Pirenéus Catalães, atravessando o Col de la Quillane, pelos 1700 metros de altitude. O céu continuava sombrio e as estradas cada vez mais estreitas e sempre a subir. Começa a chover. E continua a chover e a ver-se muito pouco por entre a névoa. São mais as caravanas do que os carros, os poucos veículos com que nos vamos cruzando. E em estradas estreitas de montanha as caravanas tendem a parar, quando se cruzam... A descida para Puigcerdá traz-nos uma aberta: finalmente podemos ver a paisagem pirenaica na sua plenitude. "Pernoitamos aqui, num hotel?" Resolvemos continuar para sul, em busca de sol. Atravessámos o Túnel de Cadí e gostámos da paisagem. Por pouco tempo, pois recomeça a chover e escurecer intensamente e temos de pernoitar em Berga. Durante a noite, troveja ainda mais do que na noite anterior.
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Acordámos para um novo dia de chuva e a hipótese de um desvio até às praias da Comunidad Valenciana, que afloráramos, fica definitivamente posta de lado. Fizemos um trajecto de regresso conhecido de outras viagens. Almoçámos perto de Burgos: procurávamos um restaurante magnífico onde já tinha estado duas vezes, mas somos enganados por obras na estrada e acabámos num outro sensaborão. E desta vez não estávamos hesitantes! Chegámos à fronteira da Madalena ao fim da tarde, ainda dia. Em cerca de 3 mil quilómetros por Espanha e França não vimos um único incêndio. Portugal estava a arder: do Lindoso a Arcos de Valdevez, em meros 30 quilómetros, vimos 5 ou 6 incêndios, o último deles exactamente à chegada. A chegada perfeita para uma desviagem. Valeu a semana seguinte, em Aldán, na Península de Morrazo (na postagem anterior).
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O que aprendemos, afinal?
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Que a vida dos gatos é como a dos homens: curta e, por isso, deve ser bem aproveitada (com a vantagem de os gatos terem 7 oportunidades para o fazer); que nos dias de grande quilometragem, em viagens de muitos dias, pernoitaremos em hotéis, pois a idade já pesa; que não há igual ao café feito por nós, como naquele anúncio antigo da Nescafé, em que um indivíduo de camisola de gola alta branca observa o mar de dentro do seu automovel; que, quando as coisas correm mal, tendem a continuar a correr mal, não por qualquer desígnio demoníaco, mas porque a menor clarividência é como lenha para a fogueira; que, já suspeitávamos, Portugal é um país a arder: lenha não falta, mas é a inépcia dos governantes a principal acendalha; que, por fim, se hesitarmos, vale mais não sairmos, a não ser porque vamos aprender mais umas coisinhas que todos já sabem.
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