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quinta-feira, 8 de março de 2007

As Nossas Escolhas

Lido e Relido
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"São as nossas escolhas que mostram o que nós somos verdadeiramente, muito mais do que as nossas capacidades."
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J. K. Rowling
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Citada em "O que Disseram", Público, 08/03/2007
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Uma frase simples; uma ideia evidente. Mas que, suspeito, me vai dar que pensar nos próximos tempos.
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sábado, 20 de janeiro de 2007

As palavras são assim...

Lido e Relido
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As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos...
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José Saramago
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in Ensaio sobre a Cegueira, Caminho, 8ª Edição, p. 267.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Nova Iorque

Lido e Relido

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Mas uma determinada solidão não se parece com nenhuma outra. A do homem que prepara a sua refeição, sobre um muro, sobre o capot de um automóvel, ao longo de um gradeamento, só. Aqui vê-se isto por toda a parte, é a cena mais triste do mundo, mais triste do que a miséria; mais triste do que aquele que mendiga é o homem que come sozinho em público. Nada há de mais contraditório com as leis humanas ou bestiais, porque os bichos concedem-se sempre a honra de partilhar ou de disputar os alimentos. Aquele que come sozinho está morto (mas não aquele que bebe, por quê?).
(...)
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Jean Baudrillard
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in América, José Azevedo Editor, 1989, pp. 22-23

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Mais vale só o peixe frito do que mal acompanhado

Lido e Relido


Nós os portugueses temos um horror especial às más companhias e, quanto aos acompanhamentos dos pratos que adoramos, nem se fala. Português e portuguesa que se prezem, levados a escolher entre partilhar a mesa com um autêntico pirata ou acompanhar os carapauzinhos com puré de batata em vez de arrozinho de tomate, jamais hesitarão em clamar, com a voz embargada de repentina hospitalidade: "Venha daí sua excelência o pirata!"
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É tal o respeito que, quando falamos das coisinhas com que gostamos de comer as nossas coisas, usamos a linguagem diplomática, reservada às digníssimas esposas dos embaixadores: "Acompanha a senhora Dona Saladinha de Pimentos e suas fiéis acólitas, as Meninas Batatinhas Cozidas". E já se sabe que se está a falar do Marquês Sardinha Assada."
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Quando viajamos pela primeira vez, nem que seja a Espanha, ficamos chocados quando nos trazem o bife solitário. Então e o resto, hermano? Pede-se e paga-se à parte. É um escândalo.
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Parte integral do nosso prazer é perguntar acerca de cada prato, quando ponderamos uma ementa: "E vem com quê, esta merda?" (...)
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É por isso que ficamos tragicamente desiludidos quando o empregado, se for da frequente laia dos estraga-prazeres, responde, com o desprezo de um bombista: "Com aquilo que o senhor quiser".
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"O que eu quiser?" Mas já chegamos à anarquia ou quê? Na cozinha portuguesa não há cá eus nem quereres - só apetecimentos. Nós não "queremos" nada - apenas nos apetecem umas iscas e gostaríamos que "viessem" com o acompanhamento com que sempre vêm. Se, por algum trauma de infância, preferimos com batata frita em vez de batata cozida, é a nós que nos compete humilharmo-nos e rastejarmos pelo chão daquela casa de pasto, pedindo em voz muito baixa se "pode ser" com batata frita, como quem confessa gostar de vestir "collants" rasgados na rabeira e aí levar umas boas vergastadas de rama de nabos.
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No fundo, os acompanhamentos na cultura portuguesa são amigos. Entre nós, é raro cultivar-se a amizade singular. Gostamos de ver, pelo menos, dois amigos juntos. É a fenomenologia da "malta". (...)
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O arroz de tomate é o camarada Necas do Peixe Frito; o rapaz que está sempre com ele; (...)
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É por isso que defendo a casmurra intransigência dos portugueses no que toca aos acompanhamentos. Noutros países pode ser uma questão de escolha livre e democrática - se alguém quer uma saladinha satânica de ananás e milho com o cachucho, pois que peça e pague. Para nós, essas fantasias não são acompanhamentos - antes acompanhantes, à maneira daquelas senhoras de vida difícil com vitrine na "Capital".
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E é assim que deve ser. Até porque já é. E melhor argumento não pode haver. Quer dizer, até há. Mas não é para aqui chamado.
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O progresso, para os portugueses, é haver milagrosamente tomates cheirosinhos até em Janeiro, graças ao injustamente vilipendiado efeito-estufa, permitindo-nos prolongar o arrozinho de tomate para generosamente poder fazer companhia aos peixinhos que singram no inverno e dantes ansiavam em vão por serem bem fritinhos e bem acompanhados.
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Apesar de tudo, se há coisa, no meio de tanta ludibriação e barrete; de tanto eufemismo e meia-verdade; que não minta, é o nosso garfinho...
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Miguel Esteves Cardoso
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in A Mesa Portuguesa, coluna do DNA , edição de 9 de Janeiro de 2004