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quinta-feira, 29 de março de 2007

Correspondentes

Da Memória
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México, Luxemburgo, Brasil, Irlanda e Argentina. Têm 20 anos estes embaixadores da minha adolescência, recuperados recentemente de um caixote vindo de casa da minha mãe. Julgava que já me tinha separado de todas as cartas dos correspondentes que, num período de meia dúzia de anos, tive pelos cinco cantos do mundo: Hong Kong, Nova Zelândia, Egipto, Moçambique, Malásia, E.U.A... Creio que cheguei a ter mais de 40 pen-friends - o nome internacional da altura (agora substituído por e-pals) - em cerca de 25 países!!! Já seria o bichinho pelas línguas e das viagens...

Ao pegar nestes envelopes para os digitalizar, senti o perfume com que a luxemburguesa Simone borrifava o papel de carta. Que sensação fantástica! São estas coisas que arrastam a nossa memória para recantos do esquecimento e nos enlevam pela redescoberta de momentos em que fomos muito felizes.

Recordo-me de regressar a casa, das aulas, para almoçar, com o coração em aceleração progressiva ao aproximar-me da entrada do prédio em que vivia; o momento de êxtase que me assaltava quando, ao espreitar pela ranhura de vidro da caixa de correio, detectava as bordas verdes e amarelas dos envelopes dos meus correspondentes brasileiros. Podem não acreditar, mas cheiravam aos trópicos, a uma terra diferente. Corria pelas escadas acima a toda a velocidade para ir buscar a chave do correio; a minha mãe resmungava comigo, com essa doideira: quero ver as tuas notas! - quando me queria castigar escondia-me as cartas até à noite, ou até um dia seguinte se sabia que tinha testes. E os postais maravilhosos que me mandavam - enchiam-me a alma!

Esta é a primeira página de uma carta da mexicana Dolores, em vésperas do Mundial de futebol do México, há 21 anos. O mínimo que vos poderá acontecer é esboçar um sorriso...

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quinta-feira, 1 de março de 2007

Como Me Tornei Benfiquista

Da Memória
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Terá sido por volta de 1976 ou 77 que me tornei Benfiquista. Vivia então em Barqueiros, Barcelos, numa casa gigantesca que, tudo indicava, era habitada por fantasmas. Os meus pais alugaram-na depois de regressarmos de Moçambique, criando um aviário nas suas salas do primeiro piso. Lembro-me de ouvir os relatos do Benfica nos jogos da Taça dos Campeões Europeus enquanto o meu pai cortava o pescoço às galinhas que ia vender de mota pelos restaurantes da região no dia seguinte. É das poucas memórias que tenho desses tempos. E também que a numerosa família da minha mãe era quase toda portista; e que me queriam converter; e que quase o conseguiam, não fosse este homem, que hoje nos deixou:
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Se hoje sou Benfiquista, foi graças às defesas do pequeno-grande Bento, descritas apaixonadamente pelos relatadores radiofónicos da época. Já partiu. Certamente num último voo heróico. E nós, que nos lembramos dele, sentimos que a nossa caminhada avança inexoravelmente.
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Um Herói Desconhecido

Da Memória
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A minha década de 80 foi marcada por centenas de exemplares de banda desenhada como o da imagem: Guerra, O Falcão, FBI, Condor, Tex, Mundo de Aventuras... O dinheiro era pouco e o que chegava aos bolsos era invariavelmente invertido em alimento para a imaginação: ainda os jogos de computador não ameaçavam a agilidade mental potenciada pela leitura...
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A mudança de casa da minha mãe trouxe à luz do dia alguns exemplares mais antigos que por lá se escondiam ainda. Foi uma surpresa muito grata. Um estímulo para recordar momentos fantásticos: em especial os encontros de trocas com vários amigos de infância, também eles leitores ávidos de aventuras e mistério. Trocar - que hábito fantástico e sempre inesperado. Na altura ainda como um gesto de partilha destituído de tiques egoístas, consequência da falta de recursos financeiros.
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A primeira página deste número da colecção Guerra (provavelmente da década de 60), marcada pelo tempo com uma mancha de humidade e a assinatura do seu comprador ou de um dos imensos leitores por cujas mãos terá passado - sem dúvida um herói desconhecido dessa fantástica cadeia de trocas:
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quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Cheiro a Terra

Da Memória

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A memória é assim: quando recordamos um momento ou algo sobre o qual já tenha decorrido muito tempo, na verdade, estamos a recordar algo que é mediado, editado - determinado pelo desgaste do tempo, os relatos que fizemos e ouvimos, a nossa volição, as fotografias que fomos revendo, os nossos valores em constante mudança... - ao ponto de, por vezes, já não ser verídico.
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O meu pai faleceu há mais de 25 anos, tinha eu 11. Do seu rosto, com muita amargura, creio já não ter nenhuma imagem pura. O que me resta é uma espécie de composição, resultante dos poucos momentos vivos que recordo e das fotografias que ficaram - não muitas. Na realidade, talvez a imagem mais fidedigna que dele tenha seja aquela com que me deparo todos os dias ao espelho. Assim o diz a minha mãe, com alguma verdade: sou a sua cara chapada - talvez também seja o coração dela a querer recordá-lo no meu rosto. Talvez. A passagem do tempo é assim.
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Regressámos de Moçambique em 1974, tinha eu 4 anos. Desses anos pouco resta: alguns objectos em pau-preto, dois baús em madeira trabalhada, um bote em borracha, algumas fotografias... pouco mais. Não posso dizer que tenha alguma memória desses 4 anos; tudo o que poderei contar será o que ouvi da minha mãe: a travessia do "rio Licungo, cheio de crocodilos", "o lacrau que te ia mordendo (ou mordeu?)" e que "o teu pai queimou em álcool", as "cobras que comiam as galinhas", "o Datsun que lá deixámos", o "maior palmar do mundo", "o carrinho em madeira que o teu pai te fez"... Na verdade, nenhuma imagem para além daquelas que ficaram registadas em fotografia.
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Mas a natureza humana é extraordinária: se há alguma coisa que eu consiga recordar, embora de forma inefável, intangível, é o cheiro de África, da sua terra. Não sei como é; não posso descrevê-lo... sei apenas que, do mesmo modo que sinto o bater do coração no peito, sinto, de vez em quando e cada vez menos, uma palpitação da memória olfativa (não sei como a descrever de outra forma) quando vejo imagens de África na televisão ou no cinema. Aconteceu-me de forma intensa ao ver Out of Africa, por exemplo. É uma memória maravilhosa - e esta, tenho a certeza, não está longe de ser pura.
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O bote de borracha que veio de Moçambique e usei até aos 18 anos.
Na praia de Macuze, Quelimane, e no rio Balsemão, em Penude, Lamego