domingo, 18 de outubro de 2009

Assim se recebe em Coura

Andarilho
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Há melhor forma de dar as boas vindas a novos colegas de trabalho que uma alegre caminhada por estradas de campo e caminhos do monte? Pois parece-me que não!
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O passo ritmado e as conversas espontâneas convidam ao conhecimento mútuo, à amizade e até ao nascimento de projectos de trabalho e de lazer futuros. Assim aconteceu por Terras do Coura, num fim de tarde fresco do início de mais um ano lectivo.
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Foram 2 horas de passeio leve pelos lugares de Lamama e Casaldate, na zona limítrofe da Paisagem Protegida do Corno do Bico, e com termo na freguesia de Padornelo para um memorável lanche ajantarado, produto cuidado das cozinheiras da escola.
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O ponto alto do percurso foi a paragem em Casaldate, junto ao rio Coura, para conhecer os moinhos e engenhos de água que chegaram a formar um centro transformador de cereais e madeira, de que pudemos testemunhar um exemplo ainda em actividade. A dois passos, o açúde conhecido pela "Praia dos Tesos", onde no verão o calor chama para banhos as gentes locais. Aqui também conhecemos e provámos uma variedade de maçã, a Malápia, um fruto de formas feias e achatadas, mas extremamente saboroso e doce. Uma descoberta!
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Certamente, das muitas e boas que teremos nos intervalos de mais um ano lectivo árduo. E este verde luxuriante que nos rodeia é o melhor prenúncio.
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domingo, 30 de agosto de 2009

Preguiça

Depois de um ano de trabalho extenuante, poderíamos antecipar um mês de férias exuberante, cheio de aventuras por terras desconhecidas, de histórias para contar. Pois bem, este ano a preguiça dominou-nos a vontade de partir, a iniciativa de esboçar uma rota a percorrer.
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Muitas horas de sono reparador, umas quantas de televisão e cinema, um pulo a Esposende, outros a Vigo e Orense e leituras esparsas. Repetimos também um giro por Valpaços, para apetrechar a garrafeira de vinhos menos tecnológicos, mas surpreendemente telúricos, encorpados e elegantes, e por Lamego, por uma centena de alheiras da Casa Marinel, que se assarão deliciosamente nas brasas de inverno das casas da família. Muitas horas ainda em volta das colecções por organizar, tantas quantas a surfar ondas electrónicas.
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Soube bem, um intervalo às dezenas de milhar de quilómetros percorridos nos últimos anos, mas não tencionamos repetir. Esperemos que para bem deste blogue, que por tudo o referido tem recebido poucos miminhos.
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terça-feira, 12 de maio de 2009

O Pântano, Serra da Peneda

Andarilho
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Um sábado inesquecível pela Serra da Peneda, em companhia de bons amigos. Um trilho pedestre acessível a todos, mas percorrido por poucos. E cá para nós - estes poucos que valorizam e procuram desfrutar das dádivas da Natureza -, ainda bem!
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O trilho começa num cotovelo da estrada junto à branda da Bouça dos Homens, numa pequena ponte sobre o rio Pomba. Um pouco de coragem e arriba!, até à cota dos 1215 metros, nas Faldas da Penameda. Seguimos o passo certo do Sr. Adelino e a correria do pequeno Pedro, a querer mostrar-se o grande homem que já é, por um carreteiro antigo de pedra e muitas memórias de pastores e romeiros, quando os transportes ainda não facilitavam a vida das gentes locais. Do alto, começa a avistar-se, ao longe, o Pântano, uma pequena represa assim chamada pelos locais. Já se torna mais fácil controlar a respiração e o apetite começa a apertar.
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O Pântano revela-se um pequeno lago acolhedor, pontilhado por pequenas flores aquáticas. O cantar das rãs domina o silêncio da serra. Um casal alemão desfruta da beleza circundante, recostado a uma rocha sobre a água. Vislumbramos uma garça na outra margem, rainha absoluta do espelho aquático. Vamos disparando as máquinas fotográficas entre poucas palavras, todas de espanto, até que os cheiros do farnel nos arrastam o paladar até uma rocha cortada como mesa por sortilégios da natureza. Os bolinhos de bacalhau, os panadinhos, o tinto e demais acepipes... Um piquenique como manda a lei e o bom gosto.
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A descida em direcção ao Santuário da Peneda faz-se por um carreteiro em ziguezague quase vertical, sob a sombra de árvores abençoadas debaixo do sol forte do início de tarde. Descemos com a certeza de termos escolhido o percurso correcto: os dois bofes-de-fora que se cruzam connosco a meio da descida, em sentido contrário, são a sua prova insofismável.
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Para quem se decida a tomar estas palavras de caminheiro e aqui se desloque em grupo, aconselha-se a que o façam em dois veículos, tomando os mais aptos o percurso vertical do Santuário da Peneda em direcção à branda da Bouça dos Homens e os mais nutridos ou relaxados o inverso. A meio, perante aquele lago belíssimo, troquem as chaves das viaturas. Ou - se a coragem for mais forte que o cansaço -, como fazem muitos dos que aqui vêm e acreditam no saber local, arremessando uma pedra até ao topo do imenso rochedo que desponta do meio do Pântano, atirem-nas para ali! Se lá se quedarem, sem que resvalem para a água, os solteiros têm boda certa. Os casados, pernoitem ali sob as estrelas e adormeçam com o cantar das rãs. Não precisarão de muito mais para serem felizes.
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sábado, 21 de março de 2009

Las Médulas, Paisagem d'Ouro

Andarilho
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Não muito longe do norte de Portugal, na região de El Bierzo, Ponferrada, província de León, podemos visitar uma das paisagens mais surpreendentes da Península Ibérica: Las Médulas - uma antiga exploração de ouro a céu aberto da época romana, classificada Património Cultural da Humanidade em 1997.
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Aconselha-se vivamente a realização do percurso pedestre de cerca de 3 quilómetros que parte do centro interpretativo, na aldeia homónima, e nos conduz por entre um majestoso bosque de castanheiros e carvalhos até às minas de La Encantada e La Cuevona. Durante o trajecto temos o privilégio de apreender em cada passada a dimensão colossal do processo de exploração aurífera que aqui ocorreu nos inícios do primeiro milénio depois de Cristo. O monte Medilianum, que ocupava esta paisagem quase extra-terrestre, foi integralmente desfeito por sucessivas enxurradas de água controladas pelos seus exploradores, armazenada metodicamente para o efeito através da captação por canais em altitude que atingiam a extensão de 300 quilómetros. Uma maravilha do engenho humano..


A não perder, também, a vista geral sobre Las Médulas proporcionada pelo Miradouro de Orellán, junto a uma pequena aldeia com o mesmo nome e acessível por estrada a poucos quilómetros de distância. Será o ponto alto de um passeio memorável, como podem documentar estas duas últimas fotografias. Se feito no inverno, o vento frio que sopra das montanhas em redor ajudará a memorizar na nossa pele a visão extraordinária que se nos depara.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Caldeirada na Costa da Caparica

À falta de tempo para escrever um texto original, deixo-vos esta deliciosa caldeirada - para saborear até ao dia 22 de Fevereiro na Costa da Caparica. Uma boa desculpa para esquecer a crise. Caso não seja possível, a leitura deste texto, por si só, é saborosíssima.
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Com a promessa de fotos e de uma crónica de barriga cheia caso possa lá dar um saltinho.

sábado, 1 de novembro de 2008

Ecovia Ponte da Barca - Ponte de Lima

Andarilho
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Uma manhã de Outono fresca e solarenga convida a um passeio memorável. A margem esquerda do rio Lima, entre Ponte da Barca e Ponte de Lima, acolhe os nossos espíritos tristonhos e dá-lhes um novo ânimo, uma nova esperança.
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A beleza do percurso, para além do espaço natural único, reside na sua variedade: os planos de água sempre à distância de um olhar; a erva orvalhada por entre as árvores; os campos de milho desbastados; o gado apurando o sabor da sua carne; o desvio por entre vinhas e sob latas; a passarada enganada por um outono primaveril; o perfume das leiras floridas; os ciclistas animados; as espigas perdidas e o cogumelo guloso que se trouxeram; as conversas soltas que se uniram pela amizade...






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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Parque Natural e Nacional de Doñana

Andarilho
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Uma visita ao Parque Natural e Nacional de Doñana, na província de Huelva, junto à foz do Guadalquivir, será seguramente uma das experiências mais gratificantes e inesquecíveis da vida de qualquer viandante.
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O acesso ao Parque Natural é relativamente aberto, sendo possível circular com liberdade pelas poucas estradas principais e muitos caminhos rurais que o entrecortam. A não perder uma passagem por El Rocío, um pueblo de ruas em areia, não calcetadas, conhecida pela Ermida da Virgen del Rocío, venerada em todo o mundo e responsável pela maior romaria de Espanha. Aqui, podemos observar o que resta da Marisma del Rocío nos meses de verão, um ecossistema sazonal que acolhe milhões de aves migratórias, em especial nos meses de inverno e primavera.
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O acesso ao Parque Nacional, por sua vez, é muito limitado e só se pode efectuar numa das visitas guiadas realizadas pela Cooperativa Andaluza Marismas del Rocío, a partir do Centro de Visitantes "El Acebuche", a poucos quilómetros de Matalascañas. É uma área de protecção integral e provavelmente o maior espaço natural da Europa, de uma beleza extraordinária. As visitas realizam-se em veículos 4x4 com capacidade para 20 pessoas e têm a duração de 4 horas, num percurso total de cerca de 70 quilómetros pelo sistema de dunas móveis, a marisma, a margem direita do Guadalquivir e 30 quilómetros de praias virgens. Pagámos 25 euros, o que poderá parecer muito, mas garantimo-vos ter sido o dinheiro mais bem gasto das nossas vidas.
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A aventura começa logo nos primeiros metros, após a passagem pelo posto de controlo (o Parque Nacional está todo cercado) à saída de Matalascañas, o último reduto do turismo de massas na costa de Huelva. A amplitude do sobe e desce das suspensões do veículo no acesso à linha de praia é tal que arranca de todos genuínos gritos de prazer e espanto, num prenúncio de 4 horas de pura adrenalina. Os primeiros 15 quilómetros são feitos junto à água, com passagem por meia dúzia de cabanas de pescadores artesanais - o único vestígio da presença humana. A quantidade de lixo deixado pelas ondas do mar espanta o grupo de holandeses, franceses, espanhóis e dois portugueses que enchem o veículo. O nosso guia, o simpático Gonzalo, foi contundente: se a praia fosse limpa todos os dias - uma hipótese quase académica, devido à extensão da face marítima do parque: 30 quilómetros -, todos os dias a encontraríamos cheia dos dejectos da humanidade. Os sacos plásticos foram letais para as 3 tartarugas que encontrámos em todo o percurso.
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Inflectimos para dentro do parque, afastando-nos do mar e percorrendo por vários quilómetros um sistema de dunas extraordinário, que avança para o interior, pela força da água e dos ventos, a um ritmo de 6 metros por ano. Entre as dunas gigantes desenvolvem-se pequenos bosques de pinheiros e mato, denominados "currais". Estes acabam por ser inexoravelmente engolidos pelo avanço das dunas e renascem na cauda de uma e a frente de avance de outra, num ciclo primordial.
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As dunas acabam na marisma: uma planície argilosa sem fim, seca e fracturada pelo calor intenso. Este, ao longe, no infinito, provoca uma miragem de água. Esta secura é provisória. Com a chegada da época das chuvas, transforma-se e enche-se de vida. Mas não se julgue que esta desaparece com o verão: na fronteira entre a marisma e o fim do complexo de dunas forma-se uma linha de vegetação que retém humidade suficiente para a sobrevivência de inúmeras espécies: vimos cervos e gamos, javalis, cavalos, gado autóctone, lebres, uma águia imperial... Só não vimos o lince ibérico - mas ainda bem! Deixemo-lo procriar e multiplicar-se nos recantos dos cotos...
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Parámos junto à margem direita do Guadalquivir, limite oriental e natural do parque, com Sanlúcar de Barrameda a um relance do olhar, na província de Cádiz. Em poucos minutos chegamos de novo à praia, junto à foz do quarto maior rio da Península Ibérica. Passámos por várias patrulhas da Guardia Civil e o Gonzalo especula: "o Zapatero deve estar aqui de férias; costuma vir para Huelva e passa as tardes na praia do Parque Nacional." Quem sabe, sabe: alguns quilómetros depois, outra patrulha ordena aos 4x4 (nesta tarde, saíram 5, sempre distanciados por várias centenas de metros) que se afastem da beira-água e inflitam para o ponto alto da praia; um pouco à frente, sentados em cadeiras de praia, de face para o mar e protegidos por um jipe e vários agentes, lá estavam o Primeiro espanhol e a companheira. Boa vida! O rolo da minha câmara, infelizmente, já se tinha acabado; mas não foi pelo político que o lamentei: a meio dos trinta quilómetros deste percurso final junto à água (que o Gonzalo fez questão de percorrer a 40 quilómetros/ hora, num ziguezague vertiginoso e memorável) deparámo-nos com o momento mais terno e extraordinário de todos: uma mãe javali tinha descido das dunas à linha de água em busca de "alimento fácil" (carcaças de vida marinha, explicou o Gonzalo); mas não vinha só: atrás de si, dois javalizinhos cambaleavam, aprendendo a vida e desfrutando de uma liberdade protegida.
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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Camping Aldán, mais uma vez

Andarilho
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aqui escrevi sobre o Camping Aldán e a Península de Morrazo, na província de Pontevedra. Faço-o mais uma vez: não só como um acto de justiça para com o casal proprietário do parque, mas também para partilhar convosco mais um pouco do paraíso.
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Os amantes do campismo e da natureza dificilmente encontrarão um parque de campismo tão tranquilo, agradável e limpo e a tão poucos metros da praia como este. Especialmente na chamada época alta, em que acampar à beira-mar é um verdadeiro desafio ao sossego, à higiene das instalações sanitárias, à limitação de espaço...
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Durante o dia, os próprios donos zelam pelo bem estar dos viandantes: a senhora, inspeccionando a limpeza das zonas de campismo, organizando o trabalho burocrático... O senhor, coordenando os trabalhos do bar/ restaurante e da mercearia. À noite, presenteiam-nos com um qualquer espectáculo musical, com artistas da zona. Desta vez, um grupo de jovens acordeonistas pautou o ritmo de elaboração da tradiconal queimada galega, servida gratuitamente aos veraneantes. "Com aguardente; não com rum, como fazem na Catalunha", explicou-me o senhor, ao deitar mais aguardente na mistura, directamente de um bidão de dez litros - mas não sem antes apagar o fogo, obviamente. Os outros ingredientes: casca de limão, açúcar a olho, grãos de café e fogo, tudo mexido com uma colher de pau gigante, sem pausas e com muita sabedoria.
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Poucas vezes temos a oportunidade de dizer isto é que é vida! Estes fins-de-semana em Aldán não nos defraudam:






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