segunda-feira, 7 de maio de 2007

Península de Morrazo, Galiza

Andarilho
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Muito perto do norte de Portugal encontra-se um dos segredos mais bem guardados da Galiza: a Península de Morrazo, a norte de Vigo. A palavra segredo será um exagero, mas a proximidade a esta cidade, Pontevedra e Sanxenxo faz com que seja relegada para segundo plano nos percursos de viagem de muitos viandantes. E ainda bem, cá para nós. Dois locais deverão merecer a vossa atenção: o parque de Campismo Aldán, na vila homónima, e o fantástico Cabo de Home.
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O Camping Aldán é um parque bem equipado, com muitas árvores frondosas e amplas áreas relvadas. O seu maior trunfo é a sua localização, a cerca de 500 metros da Playa de Francón, através de um caminho íngreme e com vistas lindíssimas sobre a baía, e a menos de um quilómetro de Aldán. Duas a três vezes por ano passamos aqui um fim-de-semana, geralmente em Junho, em que a ocupação do parque é pouco intensa e o sossego impera. A pequena Playa de Francón é bastante frequentada, sendo difícil encontrar um lugar para estender a toalha a meio da tarde; tal deve-se ao facto de se situar ao pé de outro parque de campismo (sempre cheio e menos aconselhável) e à sua localização privilegiada, num recanto da Ria de Aldán. Mas o mais agradável para mim é poder saborear uma cerveja fresca no bar tosco em estilo tropical que existe sobre a praia, com vistas magníficas e o ruído de fundo dos banhistas e das ondas a desfazerem-se no areal.
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O Cabo de Home (na foto, em baixo), a poucos quilómetros de Aldán, é uma área protegida, de acesso restrito: os caminhos que o percorrem não são alcatroados e algo difíceis de fazer; parte do percurso é dramático, feito sobre as falésias. A pé, de bicicleta ou de automóvel, é um passeio memorável. A sua maior atracção é a Playa de Melide (visível na foto), em frente à baía de Vigo e às Islas Cíes - um verdadeiro paraíso para quem aprecie a natureza em estado quase puro. Está rodeada de pinhais limpíssimos, que, graças às suas sombras abundantes e brisa constante, convidam a uma boa soneca a meio da tarde. O seu maior encanto é que, até ao meio-dia, arriscamo-nos a ser os únicos banhistas em toda a praia e área circundante, pois os hábitos noctívagos dos nossos vizinhos retêm-nos em casa até essa hora. É obrigatório levar-se pic-nic, pois o pequeno bar que existe na praia pouco mais serve que sandes e uma cervejinha fresca.
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É um daqueles poucos segredos que merece ser partilhado.
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quinta-feira, 3 de maio de 2007

Este Fulgor Baço da Terra

"Este Fulgor Baço da Terra", verso do último poema da Mensagem de Fernando Pessoa, dá o nome ao blogue que conclui o processo de "redefinição editorial" dos meus textos, de natureza muito díspar. Os posts editados no Viandante até à data ficarão em arquivo neste mesmo blogue.
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Assim:
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Este Fulgor Baço da Terra será um espaço de exercício da cidadania: apontamentos sobre quase nada e tudo menos qualquer coisinha.
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O a.p.o.n.t.a.m.e.n.t.o.s pretende ser uma espécie de bloco de notas: aqui se registarão apenas coisas boas.
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Viagens com açúcar será um repositório de histórias sobre o coleccionismo de pacotes de açúcar e um espaço de divulgação de objectos de colecção.
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A partir de hoje, finalmente, o Viandante acolherá exclusivamente textos sobre viagens, viandas e afins.
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Obrigado pela vossa atenção. Boas leituras e, se o desejarem, ainda melhores comentários!
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sexta-feira, 27 de abril de 2007

Viagens com Açúcar

Também já nasceu o Viagens com Açúcar, um blogue dedicado ao mundo do coleccionismo de pacotes de açúcar - mas com a ambição de agradar também a todos os que por lá passem e sejam leigos neste passatempo. Espero que gostem.
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quarta-feira, 25 de abril de 2007

a.p.o.n.t.a.m.e.n.t.o.s

Caros leitores:
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Tal como indiquei no post anterior, passarei a publicar neste blogue apenas notas de viagem ou textos com ela relacionados.
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Paralelamente, pretendo criar mais três blogues, cada um deles com objectivos específicos. O primeiro deles já deu o pontapé de saída: chama-se a.p.o.n.t.a.m.e.n.t.o.s e será um espaço de breves reflexões ou registos de conversas, assuntos ou momentos que valha a pena recordar.
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Os quatro blogues estarão acessíveis a partir da barra lateral de cada um deles. A periodicidade de publicação de novos textos variará, mas pretendo editar pelo menos um post por dia em qualquer um dos blogues.
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Grato pela visita e espero que gostem dos meus novos espaços.
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quinta-feira, 19 de abril de 2007

Time-out

Caros leitores:
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Durante os próximos dias não publicarei qualquer texto neste espaço.
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O Viandante será objecto de "edição"a breve trecho : passará a ser apenas um espaço de notas de viagem.
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Paralelamente, criarei mais dois ou três blogues "irmãos", dos quais vos darei notícias em breve.
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Obrigado pela vossa visita.
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segunda-feira, 16 de abril de 2007

Zé Povinho

Cartoonices
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- Nós, as lagartas, estamos mesmo no fim da cadeia alimentar.
- Eu sei...
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- Ouvi dizer que a tua mãe foi comida por um lagarto... as minhas condolências.
- A sério?
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- Pelos vistos, também estamos no fim da cadeia de informação.
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Fonte: Hello, 30-04-1994

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Mentiras (I)

Palavra Esparsa
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"O valor das pensões dos funcionários públicos é, em média, quase três vezes maior que o dos reformados do sector privado, apurou o Diário Económico.
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Enquanto a pensão média no regime geral da Segurança Social é de 370 euros, a da Caixa Geral de Aposentações (CGA) era, segundo dados de 2005, os mais recentes disponíveis, de 1.105 euros."
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É MENTIRA!
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Esta notícia (excerto retirado do Diário Económico online) foi veiculada por vários órgãos de comunicação social. E só pode ter sido veiculada por pelo menos uma de três razões: incompetência jornalística, por não analisar os factores que determinam essa diferença; tentativa de manipulação da opinião pública por parte dos órgãos de comunicação social que a divulgaram, sabe-se lá com que intenção; ou tentativa de manipulação da opinião pública por parte do governo com a conivência (consciente ou não) dos órgãos de comunicação social.
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E o que é mentira não são os números. Esses deverão estar correctos. A falácia prende-se com a omissão das razões que levam à existência desse diferencial entre as pensões de reforma dos funcionários públicos e as do regime geral da Segurança Social.
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O que se pretende (ou se diz por incompetência, para ser benévolo) com uma notícia destas é dizer que os funcionários públicos são beneficiados. Quando a verdade é que a maior parte dos seus quadros são licenciados: professores, médicos, enfermeiros, juizes... E numa proporção que deve ser bem mais do que 3 vezes superior à de licenciados no regime geral, onde a fuga ao fisco e às contribuições para a Segurança Social são o que todos conhecemos. E isto sim, mereceria um estudo honesto.
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Isto é manipulação pura! Por favor, expressem a vossa indignação!
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quarta-feira, 11 de abril de 2007

Uuuuuuuuuuuuuuuu!

Palavra Esparsa
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A minha amiga Cláudia Espassandim reenviou-me hoje um e-mail sobre a presença da Ministra da Educação num corta-mato escolar em Santa Maria da Feira, a 10 de Março (mesmo já tendo passado um mês sobre o episódio infeliz e sido o mesmo já divulgado noutros blogues, que acabei de consultar via google, nunca é tarde para chamar a atenção para este tipo de situações). A reacção de Maria de Lurdes Rodrigues perante os apupos dos alunos presentes na altura da sua intervenção está documentada neste vídeo disponível no YouTube.
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Será porventura muito desagradável ser-se apupado nestas circunstâncias, Sra. Ministra da Educação. Mas mesmo que os referidos alunos tenham reagido daquele modo por influência de terceiros, a sua reacção não deixa de ser eloquente de um modo de fazer política.
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terça-feira, 10 de abril de 2007

A Desobediência Civil

Sublinhado
Há muitos anos que tenho o vício de sublinhar os livros que leio: as passagens que acho mais relevantes, belas, hilariantes...
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Henry David Thoreau, A Desobediência Civil (Civil Disobedience, 1849), Antígona, 1987, p.64
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sábado, 7 de abril de 2007

Parque Natural do Douro Internacional

Andarilho
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Na bagagem de regresso de um passeio de dois dias por terras transmontanas: três quilos de alheiras de Sendim, duas dezenas de garrafas de vinho da Adega Cooperativa de Valpaços e da Cooperativa Agrícola de Ribadouro, um folar de Páscoa de Bragança e matéria para várias notas de viagem.
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Miranda do Douro é uma das poucas cidades portuguesas que me faltava conhecer e cujo destino fui adiando sucessivamente por esta ou aquela razão. Por fim, numa daquelas escapadinhas decididas à última hora, fizemo-nos à estrada. Não regressei desiludido (o que, aliás, nunca me aconteceu em qualquer das minhas viagens, mesmo as mais atribuladas), mas esperava um pouco mais. O quê, propriamente, não sei dizer; talvez o tempo sombrio e frio que ainda se fazia sentir tenha arrefecido as expectativas; talvez a percepção de ser mais um entreposto comercial (famoso pelos atoalhados) do que um centro de tradições culturais realmente vivas; ou o reforço da convicção de que, do outro lado da fronteira, se vive a cultura e o lazer com o dobro da intensidade...
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Mas como em tudo na vida, devemos relembrar em primeiro lugar aquilo que nos agrada e faz feliz. De terras de Miranda do Douro retive o sabor fantástico da posta mirandesa assada na brasa, a imagem de vários burros da raça autóctone pelos campos (espero que a contrariar a tendência para a extinção), a simpatia das pessoas e, em especial, o cruzeiro ambiental pelas arribas do Douro Internacional no navio ecológico "Escua".
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O Parque Natural do Douro Internacional abarca um troço do rio absolutamente díspar daquele que é conhecido pela generalidade das pessoas - o Alto Douro vinhateiro, modelado em socalcos pela força do homem e, seguramente, uma das paisagens mais belas do mundo (abarca também, a sul, um troço de um seu afluente, o Águeda). O Douro Internacional é rocha; granito na vertical, escavado ao longo de milénios pela força das águas (agora contidas por barragens a montante e jusante).
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O cruzeiro ambiental parte do cais de embarque situado do lado de cá da fronteira, em Miranda do Douro, para norte, num trajecto de cerca de 5 quilómetros entre a barragem de Miranda do Douro e o Embalse de Castro. É explorado pela empresa espanhola Europarques Hispano-Lusos, com funcionários de ambos os países. O navio está equipado com motores ecológicos e insonorizados de modo a não perturbar o habitat circundante. O cruzeiro tem a duração de uma hora.
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Chegámos ao parque de estacionamento da Estação Biológica Internacional/ Cais de embarque vinte minutos antes da hora prevista para o primeiro dos dois cruzeiros diários regulares (11.00 e 16.00). Já estava esgotado. Por sorte, extraordinariamente, realizava-se outro ao meio-dia, para o qual conseguimos os respectivos bilhetes (fornecidos em português ou castelhano, consoante a nacionalidade do turista) pelo preço de 14 euros cada. A organização revelou-se impecável, desde a recepção no parque de estacionamento, ao atendimento na bilheteira, ao embarque vigiado e às explicações do guia durante o passeio.
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Das 120 pessoas a bordo, pasme-se, 116 eram espanholas!!! Dois casais lusos não tiveram outra alternativa senão escutar todas as explicações em castelhano. Não obstante, o guia teve sempre a preocupação de traduzir todos os termos relevantes para português. Para além disso, em cada "local de observação" era passado um texto audio em ambas as línguas. Não pude deixar de pensar no que estaria a passar pela mente dos nuestros hermanos presentes: um cruzeiro que parte de território português ter apenas cerca de 3% de clientes da respectiva nacionalidade! Mais tarde, perguntei a um dos "arrumadores" portugueses do parque de estacionamento se era costume ser assim; respondeu-me, com um sorriso revelador, que os portugueses eram em média apenas 10% de todos os utentes do serviço. Quem afirma que estamos a ser invadidos por espanhóis está a dar uma desculpa para a sua própria ineficiência, passividade ou simples falta de interesse ou vontade seja para o que for.
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Mas voltando ao cruzeiro: no seu decurso pudemos observar vários grifos, uma águia real, várias gralhas-de-bico-vermelho a voar aos pares (casais muito apaixonados e eternamente fiéis, segundo o simpático guia) e alguns patos reais machos (solteiros, pois segundo parece os casalinhos ausentaram-se para outras bandas por motivos de ordem familiar). Avistamentos feitos a grande distância, obviamente (exceptuando os coitados dos patos). Pudemos também ver dois ninhos de cegonha preta abandonados, várias azinheiras (uma delas centenária) nascidas da rocha, a Poça das Lontras e um punhado de formações rochosas caprichosas. Conhecemos também a ravina para onde eram lançados os burros mirandeses que já não davam serventia (hábito de outros tempos, felizmente), e que, se não acabassem no rio, eram alimento para grifos e abutres.
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À chegada, o guia chamou a atenção dos presentes para outro capricho da natureza na parede rochosa frontal ao cais de embarque, do lado espanhol: um líquen verde claro formava um "2" que se podia visualizar a grande distância, mesmo das muralhas do castelo de Miranda do Douro. Segundo uma tradição mirandesa, as senhoras solteiras que não conseguissem discernir o 2 desenhado na parede, assim acabariam; as casadas, era porque teriam maridos que as enganavam. Um pouco de folclore para agitar as senhoras presentes. Depois do desembarque, foi oferecido um Vinho do Porto de cortesia aos participantes (em copinho de plástico) e assistimos ainda a uma exibição didáctica com um bufo real.
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Uma hora muito bem passada. Para quem se dirija a estas terras, será sem dúvida o principal atractivo de visita. Pelo menos para os espanhóis. Sorte a deles.
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Notas: Podem ler mais alguns apontamentos sobre o Parque Natural do Douro Internacional no post "De Mazouco a Freixo de Espada à Cinta", de 4 de Janeiro, também na rubrica Andarilho.
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