segunda-feira, 2 de abril de 2007

Os Jovens Gostam de ir à Escola (Uma Percepção)

Palavra Esparsa
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I
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É um dado indiscutível: serão poucos os jovens portugueses que não gostam de ir à escola; e os poucos que não gostam, é porque manifestam problemas de socialização ou por motivos de ordem familiar (pais que desvalorizam a educação formal, por exemplo).
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O mesmo não é dizer que os jovens gostam da escola - a escola entendida como um local de ensino e aprendizagem, de formação pessoal, de trabalho, de partilha de saberes e competências. Tudo isto é secundário para os nossos jovens; gostam de ir à escola porque é lá que socializam, que encontram as namoradas e os namorados, que partilham música e jogos de computador... - em suma, que vivem a sua adolescência.
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A escola de hoje é um recreio, uma sala de estar, uma passerelle. E só de vez em quando um local de estudo. E isto sucede não por culpa dos professores, dos auxiliares de acção educativa ou dos Conselhos Executivos, embora aqui e ali tenham a sua cota-parte de responsabilidade.
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Isto sucede porque se entendeu (ao nível dos decisores políticos e de algumas correntes pedagógicas) que aprender tem de andar de mãos dadas com o prazer, com o lúdico; porque se desvalorizaram conceitos como a memorização, o esforço, a paciência, a perseverança, a ambição; porque se privilegiou o desenvolvimento de competências em detrimento da aquisição de conteúdos; porque em casa não se ensina aos jovens que o telemóvel que se lhes ofereceu só existe devido ao saber acumulado e transmitido pela escola; porque os jovens têm tudo sem que se lhes exija responsabilidade; porque a legislação favorece o laxismo e dificulta a exigência...
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É verdade que há excepções; que há jovens estudantes brilhantes e esforçados; e que a escola também pode e deve ser um espaço de socialização. Mas o retrato que faço é real, mesmo que com algum exagero. É uma percepção geral de todos os que conhecem o meio escolar.
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II
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É um erro terrível a ideia de que os professores não são competentes. Nunca em Portugal houve um corpo docente com a qualidade de formação actual. Existem excepções? Claro que existem, como em todas as áreas profissionais. Existem lacunas na sua formação? Sim, existem, e a língua portuguesa é uma delas; de muitos, em particular os mais novos. Mas daí a afirmar que são pouco competentes vai uma grande distância. Aliás, quem já teve a oportunidade de trabalhar e de conviver com professores de outras nacionalidades, como eu felizmente já tive, poderá afirmar com segurança que estamos tão bem ou melhor preparados para o ensino do que muitos dos nossos parceiros europeus.
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É um erro terrível desvalorizar o papel dos professores e as suas condições de carreira. Ao contrário do que acontece com os nossos jovens, que gostam mais de ir à escola do que da escola em si, já se começa a notar uma predisposição inversa no corpo docente: gostam da escola, da arte de ensinar, mas gostam cada vez menos de ir para a escola. Também este é um facto real, que observo sobretudo naqueles que, à minha volta, considero mais competentes (por muito subjectiva que esta percepção de "competência" possa ser). E por quê? Por múltiplas razões: desvalorização do seu papel por parte de quem os emprega e por parte da sociedade; esforço inglório (não há coisa mais angustiante do que vermos os nossos rapazes e raparigas a não quererem aprender); indisciplina; desgaste psicológico... Uma atmosfera assim é inconcebível.
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Alguns destes problemas são comuns a outras profissões, dir-me-ão. Sem dúvida. Mas há um senão: a produtividade docente não é mensurável do mesmo modo. E depende de um factor que, hoje em dia, pouco podem determinar: o querer aprender; o valorizar o saber. E de outros que igualmente fogem ao seu controlo.
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A prática docente está isenta de críticas? Não, não está. Há muitas resistências que só se podem combater tornando obrigatório, limitando. Mas também há muitas condicionantes da prática docente que não são tidas em conta (a instabilidade das colocações, as deslocações...) como determinantes para o bom exercício profissional.
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A não haver uma inflexão nas políticas educativas actuais (que se regulam exclusivamente por critérios financeiros, ao contrário do que se quer fazer crer) num espaço de uma dezena de anos (a coincidir com a aposentação de muitos professores que iniciaram as suas carreiras após o 25 de Abril), passaremos de um excesso de professores profissionalizados para uma situação idêntica àquela em que se encontra o Reino Unido: escassez de candidatos a esta profissão maravilhosa.
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III
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E por que não querem os jovens aprender? Por que não valorizam eles o saber? Esta última pergunta responde à primeira, mas também é parte do problema.
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E o problema prende-se com o facto de que os modos de aprender não se coadunam com os seus modos de viver. Isto é: aprender exige esforço, paciência, método; e os nossos jovens vivem por parâmetros do mundo digital: do imediato, do determinado, do dado adquirido.
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Não sendo a escola valorizada pela sociedade e por muitos dos seus pais - um problema não especificamente português, mas de grande relevância para nós -, a pouca vontade que pudessem ter esbarra na dificuldade de adaptar os seus modos de viver aos de aprender (que o sistema educativo, na verdade, também não privilegia). E para quê o esforço, se têm tudo?
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Parece um contrasenso: a sociedade não valoriza a escola? Aos olhos dos nossos jovens, muito pouco. Será necessário definir o que é a sociedade para percebermos o argumento: o Estado? Os meios de comunicação? A família? - Tudo isto em conjunto e muito mais, supõe-se. Mas que parte desta sociedade é que realmente comunica com os nossos jovens? Esta é a verdadeira questão: quem fala aos nossos jovens é a sociedade de consumo e o audiovisual lúdico, que muitas vezes transmitem uma imagem negativa da escola ou valorizam produtos e conceitos que lhe são contrários.
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IV
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É preciso criar uma nova escola, ouve-se dizer. Não creio. É preciso, isso sim, definir claramente para que queremos a escola que temos; e perceber de que modo a sociedade em que vivemos a pode determinar positivamente.
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sábado, 31 de março de 2007

Fim da Corrupção colocaria Portugal ao Nível da Finlândia

Palavra Esparsa
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Hoje, na TSF, ouvi alguém referir um estudo que indica este dado absolutamente revelador: Portugal teria um desenvolvimento ao nível do da Finlândia se conseguisse diminuir a corrupção. Uma busca rápida no google esclareceu-me as dúvidas: Daniel Kaufmann, director dos Programas Globais do Instituto do Banco Mundial, apresenta esta tese num artigo publicado na revista trimestral do Fundo Monetário Internacional, «Finance and Development» (Agosto de 2005).
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E hoje, também, soube-se que não há ninguém preso por corrupção política em Portugal!
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Quem é responsável por este estado de coisas?
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Todos sabemos: o preço do petróleo, a Função Pública, os professores, os Serviços de Atendimento Permanente, as maternidades, a seca, as inundações, os benfiquistas, as varinas da Póvoa, a vinhaça, a D. Clementina de Colo de Pito, em Castro Daire, as ratazanas do Convento de Mafra...
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Sócrates

Palavra Esparsa
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24 séculos depois, esgrime-se um diploma universitário. Convenhamos: é bem mais refinado que um chá de cicuta. Será que o nosso Primeiro o engolirá em seco?
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sexta-feira, 30 de março de 2007

Ovos de Páscoa, Sra. Ministra!

Pérola Negra
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"Foi uma brincadeira com ovos cozidos do pequeno almoço..."
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Presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Campos de Melo, Covilhã, a propósito dos incidentes num hotel de Lloret del Mar, na Catalunha, que culminaram com a "repatriação" de algumas dezenas de estudantes portugueses do ensino secundário.
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Não diz tudo; pode ser um exemplo isolado (será? - eu já prometi a mim mesmo não acompanhar visitas de estudo com pernoita em Pousadas da Juventude, por exemplo), não se passou em território nacional...
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Mas a natureza sublime do conteúdo da frase diz tudo. Que omoletes, Sra. Ministra, que omoletes podemos nós fazer com estes ovos...?
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quinta-feira, 29 de março de 2007

Correspondentes

Da Memória
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México, Luxemburgo, Brasil, Irlanda e Argentina. Têm 20 anos estes embaixadores da minha adolescência, recuperados recentemente de um caixote vindo de casa da minha mãe. Julgava que já me tinha separado de todas as cartas dos correspondentes que, num período de meia dúzia de anos, tive pelos cinco cantos do mundo: Hong Kong, Nova Zelândia, Egipto, Moçambique, Malásia, E.U.A... Creio que cheguei a ter mais de 40 pen-friends - o nome internacional da altura (agora substituído por e-pals) - em cerca de 25 países!!! Já seria o bichinho pelas línguas e das viagens...

Ao pegar nestes envelopes para os digitalizar, senti o perfume com que a luxemburguesa Simone borrifava o papel de carta. Que sensação fantástica! São estas coisas que arrastam a nossa memória para recantos do esquecimento e nos enlevam pela redescoberta de momentos em que fomos muito felizes.

Recordo-me de regressar a casa, das aulas, para almoçar, com o coração em aceleração progressiva ao aproximar-me da entrada do prédio em que vivia; o momento de êxtase que me assaltava quando, ao espreitar pela ranhura de vidro da caixa de correio, detectava as bordas verdes e amarelas dos envelopes dos meus correspondentes brasileiros. Podem não acreditar, mas cheiravam aos trópicos, a uma terra diferente. Corria pelas escadas acima a toda a velocidade para ir buscar a chave do correio; a minha mãe resmungava comigo, com essa doideira: quero ver as tuas notas! - quando me queria castigar escondia-me as cartas até à noite, ou até um dia seguinte se sabia que tinha testes. E os postais maravilhosos que me mandavam - enchiam-me a alma!

Esta é a primeira página de uma carta da mexicana Dolores, em vésperas do Mundial de futebol do México, há 21 anos. O mínimo que vos poderá acontecer é esboçar um sorriso...

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terça-feira, 27 de março de 2007

Sardinha da Pequenina n'O Assador Típico

Aqui Bem Se Come!
Guia para o bom garfo e a carteira leve
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Hoje almoçei no Porto. Novamente. Tive que levar o meu sogro a fazer um exame ao S. António e como, para não variar, este - o exame - se atrasou e a fominha já apertava, abancámos n'O Assador Típico, ao lado do Museu Soares dos Reis. E como já aconteceu noutras ocasiões desde os meus tempos de Faculdade, saí dali de bem com a vida.
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Fui pelas sardinhinhas fritas com arroz solto de feijão vermelho. Este vinha servido num daqueles tachos em ferro fundido, pesadão, feio. Disse para mim: isto dá para um regimento. Servi-me 6 vezes! Pouco sobrou. As filhinhas do mar estavam que nem vos digo. Não é a primeira vez que lhes chamo um figo, aqui, n'O Assador Típico; da última vez, há uns anos, vinham amantizadas com um fabuloso arrozinho de grelos. Ahhh, ainda há quem fique chocado quando digo que nada se compara a uma boa mesa...
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Os meus sogros foram para o rabo de boi, acompanhado de puré de batata e legumes. Quase não falaram, a não ser para dizerem que estava tenrinho. Bem se vê. Bebemos um Meia Encosta 2003, que se portou muito bem. Para a mesa também vieram umas azeitonas graúdas amargas, daquelas que a minha mãe diz serem das boas. A minha sogra, a gulosa, mamou-as quase todas. E fez muito bem!
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Sem sobremesa e café, que só viriam estragar a memória do festim, deixámos 21 euros e 65 cêntimos. Três pessoas!
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Encontram O Assador Típico na Rua D. Manuel II, no centro do Porto, junto ao Hospital S. António, ao Museu Soares dos Reis, à Reitoria da Universidade do Porto e ao Palácio de Cristal. Bom gosto na decoração, simples e sóbria: paredes em pedra com painéis de azulejos tradicionais, tectos de madeira, relógios de pêndulo antigos e alguma loiça tradicional. Serviço prestável e eficaz.
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À mesa: A São, o Toni e o Viandante
Avaliação: 9/10
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segunda-feira, 26 de março de 2007

Aventura Brilhante

As Viagens dos Outros

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Porque é de justiça fazê-lo, remeto-vos para o site & blogue de um português fora do comum, arrojado, aventureiro; um daqueles homens que tem a coragem de abandonar tudo (ou será que devia dizer: "amar tudo") e partir para a realização de um sonho. Um sonho para a vida, realizado em grandes etapas. Neste momento, estará a pedalar o quilómetro quinze mil e tantos de um desses capítulos da sua vida de aventuras velocipédicas e afins: Uma Viagem pela Estrada Pan Americana, do Alasca polar à Terra do Fogo - 25.ooo quilómetros, coisa pouca.
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Está tudo lá. Leiam. Vejam. Garanto-vos que é necessária, também da nossa parte, alguma coragem: a de lermos sobre aquilo que gostaríamos de ter feito e não fizemos.
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Chama-se, apropriadamente, Nuno Brilhante.
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domingo, 25 de março de 2007

Pecados Íntimos, de Todd Field

Palavra Esparsa
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O que é um bom filme? Pergunta difícil; muitas respostas possíveis. Mas acredito que uma película capaz de convocar os nossos sentidos, a nossa razão e múltiplas emoções ao ponto de nos "enervar", de nos deixar incomodados, é necessariamente um bom filme. Little Children (Pecados Íntimos) é um filme excelente.
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Feito Notável do Râguebi Nacional

Palavra Esparsa
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O Portugal-Bélgica de ontem fez-me esquecer o feito notável que tinha acabado de presenciar meia hora antes. Penitencio-me pelo facto - que terá também passado despercebido à maioria por ser transmitido em canal codificado. A selecção de râguebi de Portugal apurou-se para o Mundial da modalidade num jogo heróico realizado no Uruguai. Quem viu o jogo só pode estar orgulhoso da raça colocada em campo. Por que é notável? Porque é a primeira vez que uma selecção amadora consegue tal desiderato. Amadora - homens comuns, que trabalham para ganhar a vida (com excepção de dois ou 3 jogadores, que são profissionais em equipas estrangeiras) ou são estudantes. Um feito notável, dos maiores do Portugal desportivo dos últimos anos.
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sábado, 24 de março de 2007

Temos Selecção

Palavra Esparsa
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Tenho confidenciado com os meus amigos amantes da bola que temos selecção para limpar o título mundial daqui a pouco mais de três anos (e quem sabe o Europeu!), haja uma pontinha de sorte. O tempo necessário para o amadurecimento psicológico de alguns jogadores e o estabelecimento das rotinas necessárias ao verdadeiro jogo de equipa. Faltar-nos-á um defesa esquerdo de raiz e um matador, sem desprimor para o Paulo Ferreira ou para o Nuno Gomes. Veja-se: o Ricardo está como o Vinho do Porto e o Quim é um suplente de luxo; o Miguel será um dos três melhores defesas laterais do mundo; os dois centrais jogam juntos há anos e o Fernando Meira provou no mundial da Alemanha estar à altura da posição; o Petit é grande; o João Moutinho vai ser ainda melhor que o Maniche; o Tiago terá que ganhar confiança e um pouco mais de velocidade; o Deco, a continuar lento como no mundial passado, até poderá ficar no banco - que luxo!; e depois, que selecção do mundo se pode gabar de ter 4 pontas como o Cristiano Ronaldo, o Quaresma, o Nani e o Simão? O Hugo Almeida ainda nos vai ajudar.
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Esperemos que o Sargentão queira ficar até lá. Duvido que não queira, com esta matéria prima. Caso contrário, também não nos faltam bons treinadores.
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A eles!
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