sábado, 17 de março de 2007

Arrozinho de Bróculos

Vianda
De minha Lavra
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Simples e delicioso.
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Façamos um estrugido com alguma cebola picada em pouco azeite, até que aquela fique translúcida. Junte-se-lhe, só então, uma meia dúzia de alhos picados (mexa-se apenas para que o azeite roube o sabor ao alho). Acrescentamos de imediato um pouco de água e deixamos ficar três ou quatro minutos a apurar, após o que se junta a restante água para a cozedura do arroz (na proporção de 1 deste para 1 1/2 daquela). Quando o líquido começar a ferver, junte-se-lhe o arroz Basmati e sal que baste. Durante os primeiros 2 minutos deve cozer em lume forte, após o que se reduz para intensidade média. Quando a água começar a desaparecer (pelo 6º ou 7º minuto), juntam-se os raminhos de bróculos (previamente lavados durante alguns minutos em água com umas gotas de vinagre) e um punhadinho de pedacinhos de bacon ou salsicha de presunto. Ao décimo minuto desliga-se o lume, que já estava brandinho. Revire-se o arroz uma última vez. Os bróculos acabarão por cozer no tacho, que deverá ficar destapado e coberto com um pano de cozinha.
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Casa muito bem com picanha, alheira transmontana (de Mirandela, se for artesanal; da Casa Marinel, em Lalim, Lamego, se for industrial) ou panadinhos de porco. E um bom vinho, claro.
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Bom proveito!

quinta-feira, 15 de março de 2007

"Mesada para incentivar jovens a estudar varia consoante região"

Pérola Negra
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Roubei o título deste post a um artigo do Jornal de Notícias de hoje, sobre decisão do Governo. A pérola não é do Jornal de Notícias, obviamente. Nem sobre a diferenciação da mesada, claro (embora, porventura, também merecesse uns mimos).
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Independentemente das justificações que se possam dar, está de rastos o país que paga aos seus jovens para estudar. É a negação da cultura do esforço, do brio, da perseverança, da ambição. É a negação do futuro de uma nação.
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E o mais engraçado (e quem conhece o meio, sabe que isto é uma verdade inegável) é que estes jovens fazem tudo menos estudar. Com a louvável excepção dos poucos que frequentam as escassas escolas profissionais de qualidade, os restantes estão apenas a fazer número. O que não importa, pois é isso que se quer.
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terça-feira, 13 de março de 2007

A Primavera Faz Bem

Palavra Esparsa
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Quatro borboletas esbranquiçadas a entrecruzarem-se no ar quente da tarde.
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Duas magnólias vestidas de cor-de-rosa a fazer sombra sobre o rio.
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Vários pares de namorados de mãos dadas, sentados em bancos de jardim ou sob a sombra de uma árvore. Os livros nas mochilas.
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Um jovem casal em calções a pedalar junto ao rio, empurrados por uma brisa saborosa.
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Dois patos chapinham.
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Caminho com todos os sentidos despertos, agradado, expectante.
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segunda-feira, 12 de março de 2007

Monstro Descarado

Palavra Esparsa
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O tempo estival que se fez sentir este fim-de-semana deu-me vontade de dar uma estafa ao Honda. Apeteceu-me devorar quilómetros e acampar num qualquer parque dos Picos da Europa ou da Catalunha. Infelizmente, Agosto ainda vem longe e até lá o orçamento familiar não deve dar para desvarios, mesmo que relativamente humildes. Alguém me anda a roer o fundo dos bolsos das calças. Tenho suspeitas de quem seja o monstro descarado. Deve ser o mesmo do costume.
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domingo, 11 de março de 2007

Javali no Restaurante Polo Norte

Histórias do Açúcar
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Este relato também poderia surgir-vos na rubrica Aqui Bem Se Come! Mas como com muitas outras coisas da vida, há que fazer opções. Pode acontecer que, sendo uma história com açúcar, vos pareça mais docinha.
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O restaurante Polo Norte tem as portas abertas aos amantes da boa mesa na vila de Britiande, concelho de Lamego (N 226, direcção Tarouca). Estive aqui na primeira de duas vezes, creio, em 1995, num jantar anual de amigos. Amigos lamecenses de adolescência que, por acaso ou não, se hospedaram por períodos de tempo variáveis na famigerada casa da D. Júlia, cita na Rua da Torrinha, no Porto, para frequentarem os respectivos cursos universitários (estive lá apenas dois ou três meses, mas o suficiente para poder pertencer ao clube). Estando todos a finalizar os seus cursos ou já os tendo terminado, decidimos realizar um jantar convívio anual para recordar as nossas aventuras e desventuras. Realizou-se durante três anos, até que as girandanças (o dicionário diz-me que a palavra não existe, mas gosto dela) de cada um tornaram difícil este momento de convívio.
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Fomos pelo javali, pois claro. Uma das especialidades da casa. Para dizer a verdade, não me recordo como estava. Mas só podia estar divinal, tão bem regado foi - disso sim, recordo-me. Desse jantar guardo ainda hoje este pacote de açúcar:
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Para os leigos neste maravilhoso mundo dos pacotes de açúcar, este poderá parecer um exemplar normalíssimo, pouco apelativo até. Acontece que, em Portugal, ao contrário do que sucede na vizinha Espanha (onde, por coincidência, este pacote foi embalado), é pouco comum existirem pacotes de açúcar "personalizados" (isto é: com o nome do respectivo estabelecimento, negócio...). E da década de 90 haverá mesmo muito poucos.
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Na altura, apenas "juntava" pacotes, que ia guardando numa caixa de sapatos. Caixa esta que, quinze ou dezasseis anos depois de ter começado a acolher pacotinhos de açúcar cheios, e após um abandono de quase uma década, regressou às minhas mãos há dois anos atrás vinda de casa da minha mãe. Momento em que decidi passar de ajuntador esporádico a coleccionador feroz.
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Ora, foi precisamente este pacote de açúcar que me fez voltar ao Polo Norte com a minha mãe e esposa na primavera do ano passado. Queria obter alguns para troca, caso ainda o tivessem.
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Excelente desculpa para me atirar de novo ao javali! Como resultado, este dado consabido: o palato também tem memória. O estufado só podia ter sido abençoado; ou o javardo; ou as plantas e outras criaturas de que se alimentou. Ou, mais provável, tudo isto e a fominha que trazíamos.
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Pacotes é que nem vê-los, infelizmente. Acabaram-se por volta de 1997. O cafezinho do Polo Norte é agora adoçado por saquetas correntes de marca Delta. Mas não me posso queixar. Tenho-o na minha colecção. E é um pacote muito difícil. Mas não menos importante, fiquei a saber que o Polo Norte ainda abre as portas aos apreciadores da boa mesa e, assassinos abençoados, ao saboroso porco-bravo:
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quinta-feira, 8 de março de 2007

As Nossas Escolhas

Lido e Relido
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"São as nossas escolhas que mostram o que nós somos verdadeiramente, muito mais do que as nossas capacidades."
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J. K. Rowling
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Citada em "O que Disseram", Público, 08/03/2007
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Uma frase simples; uma ideia evidente. Mas que, suspeito, me vai dar que pensar nos próximos tempos.
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quarta-feira, 7 de março de 2007

It's All In The Game

Grandes Letras
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Esta versão ao vivo de It's All In The Game (com um improviso de Make It Real One More Time) acontece no melhor período de Van Morrison. A pulsão interior e a comoção patentes em palco são absolutamente contagiantes. Rogo-vos que ouçam e vejam o Rei. E a qualidade do som e da imagem até são muito razoáveis. Obrigado YouTube. Se puderem, ouçam também a versão da canção no álbum Into the Music: mais melancólica, mais compassada, mas inesquecível.
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Many a tear has to fall
But it's all in the game
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All in the wonderful game
That we know as love
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You had words with him
And your future's looking dim
But these things your heart can rise above
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Once in a while he won't call
But it's all in the game
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Soon he'll be there by your side
With a small bouquet
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And he'll kiss your lips
And caress your fingertips
And your heart will fly away
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You had words with him
And your future's looking dim
But these things your heart can rise above
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Once in a while he won't call
But it's all in the game
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Soon he'll be there by your side
With a small bouquet
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And he'll kiss your lips
And caress your fingertips
And your heart will fly away
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terça-feira, 6 de março de 2007

Little Village

Grandes Letras
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Little village baby, ain't large enough to be a town
From a little village baby, ain't large enough to be a town
Gotta get away from the city
It's gonna bring you down
Heard the voice of the silence, in the evening
In the long cool summer nights
Heard the voice of the silence, in the evening
In the long cool summer nights
Telling me not to worry
Everything's gonna be all right
There's only two kinds of truth
Baby let's get it straight from the start
There's only two kinds of truth
Let's get it straight from the start
It's all what you believe
Baby in your head and your heart
Heard the bells ringing
Voices singing soft and low
Heard the bells ringing
Voices are singing soft and low
Way up in the mountain, little village in the snow
Raining in the forest
Just enough to magnetise the leaves
Raining in the forest
Just enough to magnetise the leaves
We'll go walking baby with the moonlight shining down through the
........................................................................trees
Little village, way up on the mountainside
Little village baby, way up on the mountainside
Way across the ocean with you by my side
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Van Morrison,
What's wrong with this picture, 2003
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Mas o que é a letra de uma canção sem o som, a voz, o ritmo... e sobretudo, a alma irlandesa e o saxofone de Van Morrison? Ouçam-no e vejam-no aqui: Little Village
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Este álbum não será um dos seus melhores trabalhos, mas é Van Morrison. Para além da magistral Little Village, aconselho a audição de What's wrong with this picture, Somerset e o último tema: Get on with the show - aquilo que o rei tem feito ao longo de 40 anos de carreira.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Vigilante

Instantes
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Junho de 2002

Ilha de Hydra, Golfo Sarónico, Grécia

domingo, 4 de março de 2007

A Star Called Henry

Sublinhado
Há muitos anos que tenho o vício de sublinhar os livros que leio: as passagens que acho mais relevantes, belas, hilariantes...

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.....She walked into my father. Melody Nash met Henry Smart. She walked right into him, and he fell. She was half his weight, half his height, six years younger but he fell straight over like a cut tree. Love at first sight? Felled by her beauty? No. He was maggoty drunk and missing his leg. He was holding himself up with a number seven shovel he'd found inside an open door somewhere back the way he'd come when Melody Nash walked into him and dropped him onto Dorset Street. It was a Sunday. She was coming from half-eight mass, he was struggling out of Saturday. Missing a leg and his sense of direction, he hit the street with his forehead and lay still. Melody dropped the beads she'd made herself and stared down at the man. She couldn't see his face; it was kissing the street. She saw a huge back, a back as big as a bed, inside a coat as old and crusted as the cobbles around it. Shovel-sized hands at the end of his outstretched arms, and one leg. Just the one. She actually lifted the coat to check.
.....- Where's your leg gone, mister? said Melody.
.....- Are you dead, mister? she asked.
(...)
.....- Sorry, mister, said Melody.
.....He shook his head.
.....- Did you see a leg on your travels? he said.
.....- No
.....- A wooden one.
.....- No.
.....He seemed disappointed.
.....- It's gone, so, he said. - I had it yesterday.
.....Then Melody said something that started them on the road to marriage and me.
.....- You're a grand-looking man without it, she said.
.....Now he looked at Melody properly. She'd only said it to comfort him but one-legged men will grab at anything.
.....- What's your name, girlie? he said.
.....- Melody Nash, she said.
.....And henry Smart fell in love. He fell in love with the name. (...)
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.....She took her shawl and wiped his face with it. She dabbed and petted, removed the blood and left the dirt. That was his own, none of her business. It didn't bother her. Dirt and grime were the glues that held Dublin together. She spat politely on a corner of the shawl and washed away the last dried, cranky specks of blood. Then she put the shawl back on.
.....- Now, she said.
(...)
.....Who was he and where did he come from? The family trees of the poor don't grow to any height. I know nothing real about my father; I don't even know if his name was real. There was never a Granda Smart, or a Grandma, no brothers or cousins. He made his life up as he went along. Where was his leg? South Africa, Glasnevin, under the sea. She heard enough stories to bury ten legs. War, an infection, the fairies, a train. He invented himself, and reinvented. He left a trail of Henry Smarts before he finally disappeared. A soldier, a sailor, a butler - the first one-legged butler to serve the Queen. He'd killed sixteen Zulus with the freshly severed limb.
.....Was he just a liar? No, I don't think so. He was a survivor; his stories kept him going. Stories were the only things the poor owned. (...)
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Roddy Doyle é também autor de uma trilogia extraordinária sobre uma família do norte de Dublin - a família Rabbitte: The Commitments, The Snapper e The Van (as três obras foram adaptadas para cinema em realizações de Stephen Frears e Alan Parker). O seu romance Paddy Clarke Ha Ha Ha foi galardoado com o Booker Prize em 1993. Também já tive a felicidade de ler The Woman Who Walked into Doors.

Conhecer a maravilhosa Irlanda passa também por ler Roddy Doyle.