quinta-feira, 8 de março de 2007

As Nossas Escolhas

Lido e Relido
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"São as nossas escolhas que mostram o que nós somos verdadeiramente, muito mais do que as nossas capacidades."
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J. K. Rowling
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Citada em "O que Disseram", Público, 08/03/2007
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Uma frase simples; uma ideia evidente. Mas que, suspeito, me vai dar que pensar nos próximos tempos.
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quarta-feira, 7 de março de 2007

It's All In The Game

Grandes Letras
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Esta versão ao vivo de It's All In The Game (com um improviso de Make It Real One More Time) acontece no melhor período de Van Morrison. A pulsão interior e a comoção patentes em palco são absolutamente contagiantes. Rogo-vos que ouçam e vejam o Rei. E a qualidade do som e da imagem até são muito razoáveis. Obrigado YouTube. Se puderem, ouçam também a versão da canção no álbum Into the Music: mais melancólica, mais compassada, mas inesquecível.
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Many a tear has to fall
But it's all in the game
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All in the wonderful game
That we know as love
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You had words with him
And your future's looking dim
But these things your heart can rise above
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Once in a while he won't call
But it's all in the game
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Soon he'll be there by your side
With a small bouquet
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And he'll kiss your lips
And caress your fingertips
And your heart will fly away
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You had words with him
And your future's looking dim
But these things your heart can rise above
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Once in a while he won't call
But it's all in the game
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Soon he'll be there by your side
With a small bouquet
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And he'll kiss your lips
And caress your fingertips
And your heart will fly away
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terça-feira, 6 de março de 2007

Little Village

Grandes Letras
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Little village baby, ain't large enough to be a town
From a little village baby, ain't large enough to be a town
Gotta get away from the city
It's gonna bring you down
Heard the voice of the silence, in the evening
In the long cool summer nights
Heard the voice of the silence, in the evening
In the long cool summer nights
Telling me not to worry
Everything's gonna be all right
There's only two kinds of truth
Baby let's get it straight from the start
There's only two kinds of truth
Let's get it straight from the start
It's all what you believe
Baby in your head and your heart
Heard the bells ringing
Voices singing soft and low
Heard the bells ringing
Voices are singing soft and low
Way up in the mountain, little village in the snow
Raining in the forest
Just enough to magnetise the leaves
Raining in the forest
Just enough to magnetise the leaves
We'll go walking baby with the moonlight shining down through the
........................................................................trees
Little village, way up on the mountainside
Little village baby, way up on the mountainside
Way across the ocean with you by my side
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Van Morrison,
What's wrong with this picture, 2003
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Mas o que é a letra de uma canção sem o som, a voz, o ritmo... e sobretudo, a alma irlandesa e o saxofone de Van Morrison? Ouçam-no e vejam-no aqui: Little Village
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Este álbum não será um dos seus melhores trabalhos, mas é Van Morrison. Para além da magistral Little Village, aconselho a audição de What's wrong with this picture, Somerset e o último tema: Get on with the show - aquilo que o rei tem feito ao longo de 40 anos de carreira.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Vigilante

Instantes
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Junho de 2002

Ilha de Hydra, Golfo Sarónico, Grécia

domingo, 4 de março de 2007

A Star Called Henry

Sublinhado
Há muitos anos que tenho o vício de sublinhar os livros que leio: as passagens que acho mais relevantes, belas, hilariantes...

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.....She walked into my father. Melody Nash met Henry Smart. She walked right into him, and he fell. She was half his weight, half his height, six years younger but he fell straight over like a cut tree. Love at first sight? Felled by her beauty? No. He was maggoty drunk and missing his leg. He was holding himself up with a number seven shovel he'd found inside an open door somewhere back the way he'd come when Melody Nash walked into him and dropped him onto Dorset Street. It was a Sunday. She was coming from half-eight mass, he was struggling out of Saturday. Missing a leg and his sense of direction, he hit the street with his forehead and lay still. Melody dropped the beads she'd made herself and stared down at the man. She couldn't see his face; it was kissing the street. She saw a huge back, a back as big as a bed, inside a coat as old and crusted as the cobbles around it. Shovel-sized hands at the end of his outstretched arms, and one leg. Just the one. She actually lifted the coat to check.
.....- Where's your leg gone, mister? said Melody.
.....- Are you dead, mister? she asked.
(...)
.....- Sorry, mister, said Melody.
.....He shook his head.
.....- Did you see a leg on your travels? he said.
.....- No
.....- A wooden one.
.....- No.
.....He seemed disappointed.
.....- It's gone, so, he said. - I had it yesterday.
.....Then Melody said something that started them on the road to marriage and me.
.....- You're a grand-looking man without it, she said.
.....Now he looked at Melody properly. She'd only said it to comfort him but one-legged men will grab at anything.
.....- What's your name, girlie? he said.
.....- Melody Nash, she said.
.....And henry Smart fell in love. He fell in love with the name. (...)
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.....She took her shawl and wiped his face with it. She dabbed and petted, removed the blood and left the dirt. That was his own, none of her business. It didn't bother her. Dirt and grime were the glues that held Dublin together. She spat politely on a corner of the shawl and washed away the last dried, cranky specks of blood. Then she put the shawl back on.
.....- Now, she said.
(...)
.....Who was he and where did he come from? The family trees of the poor don't grow to any height. I know nothing real about my father; I don't even know if his name was real. There was never a Granda Smart, or a Grandma, no brothers or cousins. He made his life up as he went along. Where was his leg? South Africa, Glasnevin, under the sea. She heard enough stories to bury ten legs. War, an infection, the fairies, a train. He invented himself, and reinvented. He left a trail of Henry Smarts before he finally disappeared. A soldier, a sailor, a butler - the first one-legged butler to serve the Queen. He'd killed sixteen Zulus with the freshly severed limb.
.....Was he just a liar? No, I don't think so. He was a survivor; his stories kept him going. Stories were the only things the poor owned. (...)
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Roddy Doyle é também autor de uma trilogia extraordinária sobre uma família do norte de Dublin - a família Rabbitte: The Commitments, The Snapper e The Van (as três obras foram adaptadas para cinema em realizações de Stephen Frears e Alan Parker). O seu romance Paddy Clarke Ha Ha Ha foi galardoado com o Booker Prize em 1993. Também já tive a felicidade de ler The Woman Who Walked into Doors.

Conhecer a maravilhosa Irlanda passa também por ler Roddy Doyle.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Como Me Tornei Benfiquista

Da Memória
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Terá sido por volta de 1976 ou 77 que me tornei Benfiquista. Vivia então em Barqueiros, Barcelos, numa casa gigantesca que, tudo indicava, era habitada por fantasmas. Os meus pais alugaram-na depois de regressarmos de Moçambique, criando um aviário nas suas salas do primeiro piso. Lembro-me de ouvir os relatos do Benfica nos jogos da Taça dos Campeões Europeus enquanto o meu pai cortava o pescoço às galinhas que ia vender de mota pelos restaurantes da região no dia seguinte. É das poucas memórias que tenho desses tempos. E também que a numerosa família da minha mãe era quase toda portista; e que me queriam converter; e que quase o conseguiam, não fosse este homem, que hoje nos deixou:
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Se hoje sou Benfiquista, foi graças às defesas do pequeno-grande Bento, descritas apaixonadamente pelos relatadores radiofónicos da época. Já partiu. Certamente num último voo heróico. E nós, que nos lembramos dele, sentimos que a nossa caminhada avança inexoravelmente.
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Um Herói Desconhecido

Da Memória
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A minha década de 80 foi marcada por centenas de exemplares de banda desenhada como o da imagem: Guerra, O Falcão, FBI, Condor, Tex, Mundo de Aventuras... O dinheiro era pouco e o que chegava aos bolsos era invariavelmente invertido em alimento para a imaginação: ainda os jogos de computador não ameaçavam a agilidade mental potenciada pela leitura...
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A mudança de casa da minha mãe trouxe à luz do dia alguns exemplares mais antigos que por lá se escondiam ainda. Foi uma surpresa muito grata. Um estímulo para recordar momentos fantásticos: em especial os encontros de trocas com vários amigos de infância, também eles leitores ávidos de aventuras e mistério. Trocar - que hábito fantástico e sempre inesperado. Na altura ainda como um gesto de partilha destituído de tiques egoístas, consequência da falta de recursos financeiros.
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A primeira página deste número da colecção Guerra (provavelmente da década de 60), marcada pelo tempo com uma mancha de humidade e a assinatura do seu comprador ou de um dos imensos leitores por cujas mãos terá passado - sem dúvida um herói desconhecido dessa fantástica cadeia de trocas:
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domingo, 25 de fevereiro de 2007

Mudança de Casa

Palavra Esparsa
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Ontem, domingo, fiz quase 400 quilómetros (ida e volta) para ajudar a minha mãe na mudança de casa. Aos 61 anos, tomou a decisão de vender a casinha que tanta canseira lhe deu para ficar mais perto dos filhos.
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Já tinha apalavrado com uma empresa de mudanças da terra o transporte do seu bric-a-brac por 400 euros. Entretanto, um amigo arranjou-lhe outro amigo (aparentemente, também com licença de transporte) que lhe faria o serviço por metade do preço mais IVA. O primeiro, especializado na matéria, queria fazer o transporte sem recibo. "São 30 contos que poupo, filho", dizia-me ela ao telefone anteontem. "Dá-me para encher o frigorífico." Disse-lhe logo que achava mal, pois teríamos que carregar e descarregar toda a sua tralha; para além de achar que o barato sai caro. Mas são fracos os argumentos para quem vive com os tostões contados.
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Ás 4 da tarde (já levávamos nós umas horas de trabalho de desmontar, encaixar, resmungar, desaparafusar, empilhar, resmungar...), pontual, chega o camiãozinho do amigo do amigo da minha mãe - daqueles com armação em ferro e cobertura em toldo. O meu irmão deitou as mãos à cabeça, sem parar de resmungar, agora em tom redobrado. Os meus olhos faiscavam... Isto foi antes de depararmos com o que estava escrito nas traseiras da trotinete: Transporte de Animais Vivos.
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Não é anedota.
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Como não havia sinal de cheiro a esterco e o inefável veículo estava limpo, e não havendo nada a fazer, lá começámos a tentar meter o elefante na banheira. As artes do povo são infinitas: coube quase tudo e o sujeito prestador do serviço não podia ter sido mais prestável e menos simpático. Hoje, um pouco depois de os galos cantarem às estrelas (sim, ainda se ouvem estes bicharocos em pleno tecido urbano da Vila de Arcos de Valdevez), lá me porei a pé para fazer mais umas (agora menos) dezenas de quilómetros para ajudar a fazer a outra metade do serviço. Não sei se terei costas para tal, mas mãe, a quanto obrigas.
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Voltarei a este episódio para alguns apontamentos existenciais...
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Cantos

Palavra Esparsa
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O título deste post é malandro. Não, não é sobre Camões. Nem a esquadria das nossas casas. Muito menos sobre a passarada canora na primavera (que já se ouve tão bem, graças ao aquecimento global). É sobre futebol! Sobre o Benfica. E é muito curto, para não afugentar as minhas leitoras... É só para registar que há cerca de 20 anos não vejo o meu clube a marcar cantos tão bem como agora. Melhor: nos últimos 20 anos o Benfica nunca teve uma equipa que aproveitasse o "saque de esquina". Era um verdadeiro suplício ver tal desperdício. E digam o que disserem, o principal responsável por tão benfazeja alteração é o Fernando Santos. O homem merece o título.
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

The Temple Bar, Irlanda (II)

Andarilho
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A cidade de Dublin desiludirá uma grande maioria dos seus visitantes, em especial quem procura património artístico construído. A cidade vale por dois nichos de interesse: a sua história literária e universitária, representada na Trinity College; e a experiência de beber uma Guiness perfeita em qualquer pub tradicional (se possível ao som de música celta ou do incontornável Van Morrison) ou na Guiness Hop Store, uma espécie de museu dedicado a esta verdadeira instituição irlandesa.
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The Temple Bar é o espaço mundano mais representativo da vida cosmopolita de Dublin, conhecido por muitos por Gomorra de Dublin. É uma das zonas mais antigas da cidade - um labirinto de ruas estreitas em que pululam restaurantes, pubs e lojas trendy.
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Em Agosto de 2001 estive aqui com os meus amigos Zé António, Susana e Ana. Passámos parte de uma noite no pub homónimo do quarteirão (nas fotos) em busca do verdadeiro pint de Guiness . Uma noite que me ficará para sempre guardada na memória por um episódio absolutamente insólito, otherworldly. As minhas amigas entabulavam conversa com dois australianos (segundo elas, incisivas como são as mulheres, foram eles a abordá-las, convidando-as para um pint) e nós, mais tímidos, ensaiávamos uns bigodinhos espumosos reclinados sobre um balcão corrido. Observávamos um microcosmos do mundo; escutávamos, por entre o ritmo intenso da música soul e pop rock prevalecente, uma verdadeira Babel. Mais do que tímidos, creio, estávamos espantados (que é, aliás, um estado aparentado com a timidez).
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Por entre tragos amargos e aveludados de Guiness e comentários à fauna humana em constante trânsito pelas salas labirínticas do Temple Bar, estacaram-se-me os olhos em 3 moçoilas, recostadas a uma parede de madeira do pub, a dois, três metros de distância. Comentei com o Zé, com a pulsação em aceleração, que falavam de nós por entre risadinhas confidentes. Concordou, com um sorriso revelador. "Estão a olhar para ti", disse-me ele, sem tirar os olhos delas. Aparentavam os seus 20-25 anos, de corpo algo avantajado mas de rosto atraente e vivo, rosado - em especial a que ("valha-me Deus!", terei pensado alarmado) se dirigiu a mim com ar confiante, determinadamente constrangedor:
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- Hi!
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Em poucos momentos da minha vida me senti tão desligado de mim. Lembro-me de ter alinhado na conversa da escocesa de Glasgow com alguma naturalidade, ultrapasada a dificuldade inicial de sintonizar a pronúncia rasgada da beleza celta. Mas era como se o que dissesse fosse pronunciado por uma voz autónoma, distante, enquanto tentava perceber a situação e ao que ela vinha. Até que, ainda perdido, me fuzilou (o diálogo terá sido algo semelhante a isto):
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- Can I ask you something?
- Sure.
- Can I have you shorts?
- What?
- Your boxer shorts.
- My what?
- Your BOXER SHORTS! (quase me beijando a orelha esquerda)
- What for?
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O diálogo que se seguiu (e que esta última pergunta abriu desastradamente) deveria ficar nos compêndios de sedução como o maior disparate de todos os tempos. Não que se tratasse de uma tentativa de sedução propriamente dita, nem que era para isso que ali estava, mas ficava a caminho. Adivinhando o meu não, a jovem explicou-me sucintamente (e certamente com algum enfado) o porquê do seu pedido, como se para fazer amor necessitássemos de explicar a natureza do prazer. Fiquei a saber que era hábito grupos de jovens escocesas de Glasgow deslocarem-se a Dublin ao fim-de-semana para cumprir um rito de passagem em Temple Bar. Soube assim, também, que a jovem que tinha à minha frente teria provavelmente 18 anos (é normal as mulheres britânicas aparentarem ser mais velhas do que o que realmente são), e que estava ali a ser testada pelas outras duas amigas. Já tinha cravado uma bebida a um homem mais velho; um ou dois números de telefone a outros tantos; e realizado outras provas que já se esconderam nos meandros da minha memória. E agora queria os meus shorts.
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- No, I'm sorry.
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Parvo! (dizia-me uma vozinha). Agradeceu-me com frieza e afastou-se para junto das amigas. Não perderam tempo e foram à procura de mais uma vítima. Virei-me para o Zé, que assistira à conversa sem perceber nada para além da minha nega, mas adivinhando a possível asneira. Discutíamos o insólito da abordagem e a justeza da minha decisão, quando, apenas alguns minutos depois, passa afogueada e de mão dada a um sujeito careca a nossa amiga de Glasgow. Em direcção às toilets masculinas. A Susana e a Ana juntaram-se a nós quase a seguir e, talvez também porque não o quisesse saber, não tornámos a ver o par a sair da casa de banho nem no imenso pub. Pouco depois saímos, contando cada um dos pares as sua histórias.
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Que outras provas não teria essa noite a nossa amiga de Glasgow? Nunca o saberei.
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