segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Um Herói Desconhecido

Da Memória
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A minha década de 80 foi marcada por centenas de exemplares de banda desenhada como o da imagem: Guerra, O Falcão, FBI, Condor, Tex, Mundo de Aventuras... O dinheiro era pouco e o que chegava aos bolsos era invariavelmente invertido em alimento para a imaginação: ainda os jogos de computador não ameaçavam a agilidade mental potenciada pela leitura...
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A mudança de casa da minha mãe trouxe à luz do dia alguns exemplares mais antigos que por lá se escondiam ainda. Foi uma surpresa muito grata. Um estímulo para recordar momentos fantásticos: em especial os encontros de trocas com vários amigos de infância, também eles leitores ávidos de aventuras e mistério. Trocar - que hábito fantástico e sempre inesperado. Na altura ainda como um gesto de partilha destituído de tiques egoístas, consequência da falta de recursos financeiros.
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A primeira página deste número da colecção Guerra (provavelmente da década de 60), marcada pelo tempo com uma mancha de humidade e a assinatura do seu comprador ou de um dos imensos leitores por cujas mãos terá passado - sem dúvida um herói desconhecido dessa fantástica cadeia de trocas:
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domingo, 25 de fevereiro de 2007

Mudança de Casa

Palavra Esparsa
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Ontem, domingo, fiz quase 400 quilómetros (ida e volta) para ajudar a minha mãe na mudança de casa. Aos 61 anos, tomou a decisão de vender a casinha que tanta canseira lhe deu para ficar mais perto dos filhos.
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Já tinha apalavrado com uma empresa de mudanças da terra o transporte do seu bric-a-brac por 400 euros. Entretanto, um amigo arranjou-lhe outro amigo (aparentemente, também com licença de transporte) que lhe faria o serviço por metade do preço mais IVA. O primeiro, especializado na matéria, queria fazer o transporte sem recibo. "São 30 contos que poupo, filho", dizia-me ela ao telefone anteontem. "Dá-me para encher o frigorífico." Disse-lhe logo que achava mal, pois teríamos que carregar e descarregar toda a sua tralha; para além de achar que o barato sai caro. Mas são fracos os argumentos para quem vive com os tostões contados.
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Ás 4 da tarde (já levávamos nós umas horas de trabalho de desmontar, encaixar, resmungar, desaparafusar, empilhar, resmungar...), pontual, chega o camiãozinho do amigo do amigo da minha mãe - daqueles com armação em ferro e cobertura em toldo. O meu irmão deitou as mãos à cabeça, sem parar de resmungar, agora em tom redobrado. Os meus olhos faiscavam... Isto foi antes de depararmos com o que estava escrito nas traseiras da trotinete: Transporte de Animais Vivos.
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Não é anedota.
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Como não havia sinal de cheiro a esterco e o inefável veículo estava limpo, e não havendo nada a fazer, lá começámos a tentar meter o elefante na banheira. As artes do povo são infinitas: coube quase tudo e o sujeito prestador do serviço não podia ter sido mais prestável e menos simpático. Hoje, um pouco depois de os galos cantarem às estrelas (sim, ainda se ouvem estes bicharocos em pleno tecido urbano da Vila de Arcos de Valdevez), lá me porei a pé para fazer mais umas (agora menos) dezenas de quilómetros para ajudar a fazer a outra metade do serviço. Não sei se terei costas para tal, mas mãe, a quanto obrigas.
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Voltarei a este episódio para alguns apontamentos existenciais...
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Cantos

Palavra Esparsa
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O título deste post é malandro. Não, não é sobre Camões. Nem a esquadria das nossas casas. Muito menos sobre a passarada canora na primavera (que já se ouve tão bem, graças ao aquecimento global). É sobre futebol! Sobre o Benfica. E é muito curto, para não afugentar as minhas leitoras... É só para registar que há cerca de 20 anos não vejo o meu clube a marcar cantos tão bem como agora. Melhor: nos últimos 20 anos o Benfica nunca teve uma equipa que aproveitasse o "saque de esquina". Era um verdadeiro suplício ver tal desperdício. E digam o que disserem, o principal responsável por tão benfazeja alteração é o Fernando Santos. O homem merece o título.
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

The Temple Bar, Irlanda (II)

Andarilho
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A cidade de Dublin desiludirá uma grande maioria dos seus visitantes, em especial quem procura património artístico construído. A cidade vale por dois nichos de interesse: a sua história literária e universitária, representada na Trinity College; e a experiência de beber uma Guiness perfeita em qualquer pub tradicional (se possível ao som de música celta ou do incontornável Van Morrison) ou na Guiness Hop Store, uma espécie de museu dedicado a esta verdadeira instituição irlandesa.
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The Temple Bar é o espaço mundano mais representativo da vida cosmopolita de Dublin, conhecido por muitos por Gomorra de Dublin. É uma das zonas mais antigas da cidade - um labirinto de ruas estreitas em que pululam restaurantes, pubs e lojas trendy.
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Em Agosto de 2001 estive aqui com os meus amigos Zé António, Susana e Ana. Passámos parte de uma noite no pub homónimo do quarteirão (nas fotos) em busca do verdadeiro pint de Guiness . Uma noite que me ficará para sempre guardada na memória por um episódio absolutamente insólito, otherworldly. As minhas amigas entabulavam conversa com dois australianos (segundo elas, incisivas como são as mulheres, foram eles a abordá-las, convidando-as para um pint) e nós, mais tímidos, ensaiávamos uns bigodinhos espumosos reclinados sobre um balcão corrido. Observávamos um microcosmos do mundo; escutávamos, por entre o ritmo intenso da música soul e pop rock prevalecente, uma verdadeira Babel. Mais do que tímidos, creio, estávamos espantados (que é, aliás, um estado aparentado com a timidez).
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Por entre tragos amargos e aveludados de Guiness e comentários à fauna humana em constante trânsito pelas salas labirínticas do Temple Bar, estacaram-se-me os olhos em 3 moçoilas, recostadas a uma parede de madeira do pub, a dois, três metros de distância. Comentei com o Zé, com a pulsação em aceleração, que falavam de nós por entre risadinhas confidentes. Concordou, com um sorriso revelador. "Estão a olhar para ti", disse-me ele, sem tirar os olhos delas. Aparentavam os seus 20-25 anos, de corpo algo avantajado mas de rosto atraente e vivo, rosado - em especial a que ("valha-me Deus!", terei pensado alarmado) se dirigiu a mim com ar confiante, determinadamente constrangedor:
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- Hi!
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Em poucos momentos da minha vida me senti tão desligado de mim. Lembro-me de ter alinhado na conversa da escocesa de Glasgow com alguma naturalidade, ultrapasada a dificuldade inicial de sintonizar a pronúncia rasgada da beleza celta. Mas era como se o que dissesse fosse pronunciado por uma voz autónoma, distante, enquanto tentava perceber a situação e ao que ela vinha. Até que, ainda perdido, me fuzilou (o diálogo terá sido algo semelhante a isto):
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- Can I ask you something?
- Sure.
- Can I have you shorts?
- What?
- Your boxer shorts.
- My what?
- Your BOXER SHORTS! (quase me beijando a orelha esquerda)
- What for?
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O diálogo que se seguiu (e que esta última pergunta abriu desastradamente) deveria ficar nos compêndios de sedução como o maior disparate de todos os tempos. Não que se tratasse de uma tentativa de sedução propriamente dita, nem que era para isso que ali estava, mas ficava a caminho. Adivinhando o meu não, a jovem explicou-me sucintamente (e certamente com algum enfado) o porquê do seu pedido, como se para fazer amor necessitássemos de explicar a natureza do prazer. Fiquei a saber que era hábito grupos de jovens escocesas de Glasgow deslocarem-se a Dublin ao fim-de-semana para cumprir um rito de passagem em Temple Bar. Soube assim, também, que a jovem que tinha à minha frente teria provavelmente 18 anos (é normal as mulheres britânicas aparentarem ser mais velhas do que o que realmente são), e que estava ali a ser testada pelas outras duas amigas. Já tinha cravado uma bebida a um homem mais velho; um ou dois números de telefone a outros tantos; e realizado outras provas que já se esconderam nos meandros da minha memória. E agora queria os meus shorts.
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- No, I'm sorry.
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Parvo! (dizia-me uma vozinha). Agradeceu-me com frieza e afastou-se para junto das amigas. Não perderam tempo e foram à procura de mais uma vítima. Virei-me para o Zé, que assistira à conversa sem perceber nada para além da minha nega, mas adivinhando a possível asneira. Discutíamos o insólito da abordagem e a justeza da minha decisão, quando, apenas alguns minutos depois, passa afogueada e de mão dada a um sujeito careca a nossa amiga de Glasgow. Em direcção às toilets masculinas. A Susana e a Ana juntaram-se a nós quase a seguir e, talvez também porque não o quisesse saber, não tornámos a ver o par a sair da casa de banho nem no imenso pub. Pouco depois saímos, contando cada um dos pares as sua histórias.
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Que outras provas não teria essa noite a nossa amiga de Glasgow? Nunca o saberei.
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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Babel, de Alejandro Iñárritu

Palavra Esparsa
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Tivesse eu saído da sala de cinema a meio da película, sem ter conhecimento do epílogo de cada um dos enredos paralelos, não hesitaria em considerá-la, mesmo assim, uma obra prima.
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O menos importante no filme é precisamente cada uma das histórias, ligadas entre si por artíficios narrativos mais ou menos plausíveis. Elas servem apenas para nos relembrar alguns aspectos da vida humana em sociedade e das relações entre os povos: tensão constante, incompreensão (linguística, cultural, política...), diversidade, amor, esperança.
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Esperança. É esse o sentido do bilhete entregue por Chieko (a personagem adolescente encarnada magistralmente por Rinko Kikuchi - por mim, é seu o óscar para melhor atriz secundária) ao agente da polícia japonesa. Muito se tem discutido sobre o conteúdo do bilhete, se devia ter sido revelado ou não, se é um artifício narrativo gasto... Parece-me uma discussão estéril. A única coisa relevante é que o bilhete é, de facto, lido. E, como tal, presume-se, compreendido. Porque é disso que trata o filme: da necessidade de ultrapassar os obstáculos à compreensão entre os homens.
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Banda sonora magnífica: será a música um meio privilegiado para o entendimento entre os seres humanos?
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Sobre Blogues e Poemas

Palavra Esparsa
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Por mero acaso, acabei de ler um post muito bem escrito sobre blogues e poemas. Encontram-no no Auto-retrato. Foi escrito por Sérgio Lavos e chama-se Ritmo. Vale a pena.
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Após a sua leitura, questiono-me sobre a relevância da Rubrica Poema do Mundo, que aqui alimento. Relevância para quem? Para mim, exclusivamente. E talvez apenas porque me sinto impelido a tirar o pó a velhos amigos. Com muito carinho.
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Poema (Desobediência Civil)

Poema do Mundo
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Um sábio
não sabia fumar cachimbo
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mas a mulher do sábio sabia
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quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria
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e assim durante meses e anos
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até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia
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por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria
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António José Forte
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in Corpo de Ninguém, Hiena, 1989
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

O Cozido à Minhota e o Fim de Semana Gastronómico de Arcos de Valdevez

Vianda
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Abanque num dos nossos restaurantes e experimente um assombro de paladares! "O Cozido à Minhota, fossado, esgravatado e escorneado." Divino!
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Este foi o slogan do Fim de Semana Gastronómico que acabou de se realizar na maravilhosa vila de Arcos de Valdevez. Como sucede anualmente nesta ocasião, almocei no simpático restaurante O Morais. Para não variar, mandámos vir meia de cozido e meia de cabrito assado, substância que baste para três estômagos famintos. Tudo regado com um inesperado vinho verde tinto da Adega Cooperativa de Ponte da Barca, colheita de 2006. Geralmente preferimos vinho maduro, mas por respeito pelos sabores e tradições da região nesta ocasião, decidimos provar o vinho escolhido pelo Sr. Diogo para satisfazer o exigente palato da clientela. Estava fantástico! A fazer jus ao soberbo cozido, de que vos deixo a receita:
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Como sobremesa, deliciei-me com os afamados Charutos d'Ovos, obrigatoriamente acompanhados por uma Laranja do Ermelo (para cortar o doce excessivo), um dos mais mediáticos produtos do concelho e constante da lista "melhores produtos do mundo" do movimento Slow Food.
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O Rancho Folclórico de S. Paio, freguesia local, brindou-nos com uma actuação breve durante o repasto, tal como fez por todos os 15 restaurantes aderentes à iniciativa.
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Vive-se bem em Arcos de Valdevez!
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domingo, 11 de fevereiro de 2007

Sobre a Democracia Representativa

Palavra Esparsa
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A percentagem de cidadãos abstencionistas no referendo hoje realizado leva-me a formular alguns disparates:
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1. A realização do referendo foi uma tonteria. Mas mais do que isso, foi um ultraje aos dinheiros públicos. A questão devia ter sido decidida na Assembleia da República. É para isso que elegemos os nossos representantes. E não interessa nada à questão se estamos mal ou bem representados. Interessaria, isso sim, saber a quem deu jeito este referendo.
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2. A realização de um referendo só se justifica em questões maiores: a participação ou não numa guerra ou a entrada numa instituição como a União Europeia (mas não pronunciarmo-nos sobre a sua Constituição), por exemplo. Não sei se a lei prevê a auscultação do povo nestas situações, mas é em relação a elas que se justifica ouvir os cidadãos.
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3. O que o cidadão quer, na verdade, é ser feliz. Tratar da sua vidinha. E para isso só precisa do estado como garante de que não tem obstáculos "burocráticos" de monta na sua curta passagem pelo mundo terreno. Em suma: uma Justiça digna desse nome e condições para que as "relações económicas" entre pessoas e instituições floresçam. Para tal, elege de xis em xis anos os seus representantes maiores, a quem cabe decidir sensatamente em questões como a que hoje levou um punhado de cidadãos crédulos (eu fui um deles) às urnas.
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4. Ou será que também temos de referendar estes deveres do estado?
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Só não sai a Lotaria

Acontece
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Aconteceu-me em 1995, então a finalizar o curso universitário. Para custear parte das despesas de subsistência no Porto, dava explicações de Inglês a filhos de pessoas minhas conhecidas. A maior parte dos trabalhos tinham lugar no mítico café Vasco da Gama, na rua da Boa Hora.
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Em dado momento tive três explicandos. Recordo-me apenas do nome de um deles, o Ricardo, filho da D. Fátima, funcionária dos Serviços Sociais da Universidade do Porto; os outros dois eram irmãos: uma rapariga que fazia o 11º e um rapaz que estava no 9º, netos da falecida D. Rosa, governanta da residência universitária onde vivia - a RUNA.
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Num dia em particular (relevante para o relato, mas cuja data não interessa especificar), calhou ter trabalhado com os 3 (ou pelo menos 2 deles, incluindo um dos irmãos - a memória não dá para mais!), em horas diferentes do dia. Palavra puxa palavra, descobrimos que, os 4 - explicador e explicandos -, fazíamos anos no mesmo dia. Precisamente aquele.
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A probabilidade de que tal possa acontecer deve fazer inveja à probabilidade de acertar nos números da lotaria. Desconfio que preferiria ter dado de caras com esta última...
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Mas por outro lado, também não teria esta história para contar...
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