quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Poema (Desobediência Civil)

Poema do Mundo
.
Um sábio
não sabia fumar cachimbo
.
mas a mulher do sábio sabia
.
quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria
.
e assim durante meses e anos
.
até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia
.
por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria
.
António José Forte
.
in Corpo de Ninguém, Hiena, 1989
.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

O Cozido à Minhota e o Fim de Semana Gastronómico de Arcos de Valdevez

Vianda
.
Abanque num dos nossos restaurantes e experimente um assombro de paladares! "O Cozido à Minhota, fossado, esgravatado e escorneado." Divino!
.
Este foi o slogan do Fim de Semana Gastronómico que acabou de se realizar na maravilhosa vila de Arcos de Valdevez. Como sucede anualmente nesta ocasião, almocei no simpático restaurante O Morais. Para não variar, mandámos vir meia de cozido e meia de cabrito assado, substância que baste para três estômagos famintos. Tudo regado com um inesperado vinho verde tinto da Adega Cooperativa de Ponte da Barca, colheita de 2006. Geralmente preferimos vinho maduro, mas por respeito pelos sabores e tradições da região nesta ocasião, decidimos provar o vinho escolhido pelo Sr. Diogo para satisfazer o exigente palato da clientela. Estava fantástico! A fazer jus ao soberbo cozido, de que vos deixo a receita:
.

Como sobremesa, deliciei-me com os afamados Charutos d'Ovos, obrigatoriamente acompanhados por uma Laranja do Ermelo (para cortar o doce excessivo), um dos mais mediáticos produtos do concelho e constante da lista "melhores produtos do mundo" do movimento Slow Food.
.
O Rancho Folclórico de S. Paio, freguesia local, brindou-nos com uma actuação breve durante o repasto, tal como fez por todos os 15 restaurantes aderentes à iniciativa.
.
Vive-se bem em Arcos de Valdevez!
.


domingo, 11 de fevereiro de 2007

Sobre a Democracia Representativa

Palavra Esparsa
.
A percentagem de cidadãos abstencionistas no referendo hoje realizado leva-me a formular alguns disparates:
.
1. A realização do referendo foi uma tonteria. Mas mais do que isso, foi um ultraje aos dinheiros públicos. A questão devia ter sido decidida na Assembleia da República. É para isso que elegemos os nossos representantes. E não interessa nada à questão se estamos mal ou bem representados. Interessaria, isso sim, saber a quem deu jeito este referendo.
.
2. A realização de um referendo só se justifica em questões maiores: a participação ou não numa guerra ou a entrada numa instituição como a União Europeia (mas não pronunciarmo-nos sobre a sua Constituição), por exemplo. Não sei se a lei prevê a auscultação do povo nestas situações, mas é em relação a elas que se justifica ouvir os cidadãos.
.
3. O que o cidadão quer, na verdade, é ser feliz. Tratar da sua vidinha. E para isso só precisa do estado como garante de que não tem obstáculos "burocráticos" de monta na sua curta passagem pelo mundo terreno. Em suma: uma Justiça digna desse nome e condições para que as "relações económicas" entre pessoas e instituições floresçam. Para tal, elege de xis em xis anos os seus representantes maiores, a quem cabe decidir sensatamente em questões como a que hoje levou um punhado de cidadãos crédulos (eu fui um deles) às urnas.
.
4. Ou será que também temos de referendar estes deveres do estado?
.

Só não sai a Lotaria

Acontece
.
Aconteceu-me em 1995, então a finalizar o curso universitário. Para custear parte das despesas de subsistência no Porto, dava explicações de Inglês a filhos de pessoas minhas conhecidas. A maior parte dos trabalhos tinham lugar no mítico café Vasco da Gama, na rua da Boa Hora.
.
Em dado momento tive três explicandos. Recordo-me apenas do nome de um deles, o Ricardo, filho da D. Fátima, funcionária dos Serviços Sociais da Universidade do Porto; os outros dois eram irmãos: uma rapariga que fazia o 11º e um rapaz que estava no 9º, netos da falecida D. Rosa, governanta da residência universitária onde vivia - a RUNA.
.
Num dia em particular (relevante para o relato, mas cuja data não interessa especificar), calhou ter trabalhado com os 3 (ou pelo menos 2 deles, incluindo um dos irmãos - a memória não dá para mais!), em horas diferentes do dia. Palavra puxa palavra, descobrimos que, os 4 - explicador e explicandos -, fazíamos anos no mesmo dia. Precisamente aquele.
.
A probabilidade de que tal possa acontecer deve fazer inveja à probabilidade de acertar nos números da lotaria. Desconfio que preferiria ter dado de caras com esta última...
.
Mas por outro lado, também não teria esta história para contar...
.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Sobre a Consciência

Capas
.
.
A Time desta semana (deverá chegar às bancas em breve) tem esta capa fantástica. E um pequeno artigo do nosso António Damásio (A Story We Tell Ourselves) sobre a consciência, no âmbito do tema de capa - absolutamente interessante.
.
Na secção 10 Questions For... o entrevistado é o omnipresente Bill Gates, a propósito do novo Windows Vista. É significativa a sua resposta à seguinte questão:
.
Education is a big focus for you. So, is there better learning through technology?
.
It's important to be humble when we talk about education, because TV was going to change education and video-tape was going to change it and computer-aided instruction was going to change it. But until the internet exploded 10 years ago, technology really hadn't made a dent in education at all. Learning is mostly about creating a context for motivation. It's about why should you learn things. Technology plays a role, but it's not a panacea.
.
Time, February 12, 2007

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

À Procura de Emprego

Palavra Esparsa
.
A minha mãe ficou desempregada há pouco tempo. Ontem, telefonou-me a dizer que estava desgostosa. Tinha acabo de vir do Centro de Emprego (ou da Segurança Social, não tenho bem presente), onde tem que se apresentar de quinze em quinze dias. Disseram-lhe que a partir de agora tem de provar que andou à procura de trabalho: apresentar quinzenalmente um formulário com o carimbo e assinatura de duas entidades empregadoras que ela tenha abordado.
.
A minha mãe tem 61 anos e vários problemas de saúde mais ou menos incapacitantes. Mas, pelos vistos, é apenas um número - e um número pode ser qualquer coisa. Uma máquina, talvez.
.
Se o princípio me parece correcto (será sensato?), obrigar pessoas nas mesmas circunstâncias a este tipo de pura burocracia é, no mínimo, inconsequente. Em rigor, uma estupidez.
.
E imaginemos a horda de centenas de milhar de desempregados em busca de empregadores dispostos a perder tempo com uma assinatura e um carimbo... Dá para uma meia dúzia de bons sketches do Gato Fedorento.
.
Só se promove o emprego valorizando-o. Isto é: o trabalho tem de ser bem remunerado, de modo a que quem esteja desempregado se sinta estimulado a não viver com um subsídio de sobrevivência.
.
Pergunto: é assim tão difícil perceber isto?
.
E os beneficiários de subsídio de desemprego?, perguntam-me. Em vez destes joguinhos de burocratas estúpidos, não tenho dúvidas: formação/ escolarização obrigatória, seja qual for a idade; em alternativa, realização de actividades em prol da comunidade.
.

Red Dog

Capas
.
.
Red Dog é uma obra inesperada. Comprei-a por libra e meia numa livraria de Cambridge há cerca de três anos, atraído pelo preço de saldo e pela capa. Li-a como quem come cerejas. Red Dog é um conjunto de histórias que Louis de Bernières reescreve tendo por base factos verídicos (artigos de jornais, testemunhos) relativos à vida de um cão - Tally Ho - nativo da árida Austrália ocidental. Berniéres conheceu-o numa visita à cidade mineira de Karratha, a norte de Perth, na forma de uma estátua de bronze que aí o imortaliza.
.
Nem o mais frio coração pode ficar insensível à personalidade desta figura real e profundamente humana. Se muitos dos "homens" que abandonam animais antes da partida para férias estivais lesse este livro, provavelmente deixaria de o fazer. Para avalizar a natureza heróica de Tally Ho, basta dizer que a obra de Bernières é, imagine-se, a terceira "biografia" a ele dedicada. Quantos homens não gostariam de ter este currículo? E como único dado da sua vida superior que vos revelo, basta dizer que o irascível Tally Ho percorreu a costa ocidental australiana de lés a lés à boleia de camionistas Aussies, regressando e partindo em busca da sua figura tutelar, o seu mestre, já falecido.
.
Tudo isto sintetizado de forma brilhante na capa do livro, com ilustração de Allan Baker e Bill Bachman, edição em hardcover da Secker & Warburg, 2001.
.
Este é um daqueles livros que poderia trazer muitas crianças e jovens ao mundo maravilhoso da leitura.
.
Uma consulta rápida na internet revelou-me que Red Dog já está traduzido para português, em edição da Asa: O Cão Vermelho.
.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

A Cerejeira

Árvores
Loa ao mais belo ser vivo à face da Terra.
.
Nota introdutória:
.
Sempre olhei para as árvores com reverência. A sua grandeza ultrapassa a dimensão estrita do reino vegetal. A árvore é, mais do que tudo, um ser sereno: vive bem consigo própria e com o mundo, ao qual tudo dá e pouco exige. Se Deus existe, tomou forma e vejo-o numa árvore.
.
Esta rubrica faz parte de um projecto antigo, embora com forma sempre indefinida, de "catalogar" as árvores do mundo e as minhas memórias delas. Dou o pontapé de saída com a árvore de fruto que mais me fez sonhar (e trepar) durante a infância: uma amiga do coração - a Cerejeira.
.

O seu bilhete de identidade: A Prunums avium pertence à família das Rosáceas, sub-família Prunoideas e género Prunus . É uma espécie rústica e de crescimento rápido. O tronco é direito e de casca lisa; a copa é ampla e formada por ramos divergentes; as suas folhas são simples e caducas; as flores formam longos colares pendentes e são geralmente brancas, embora haja espécies com flores em tons rosa, côr de pêssego...; e os frutos... ai os frutos!... são pequenos, globosos, carnosos e deliciosamente suculentos! Encontra-se um pouco por todo o mundo.

Conheci-a por volta dos meus oito anos, quando, vinda de Barqueiros, Barcelos, a minha família assentou arraiais no concelho de Lamego. A primeira Cerejeira que a minha memória se lembra de ter contemplado fazia sombra sobre a rampa de acesso à garagem onde, por volta de 1979, o meu pai se tinha estabelecido como electricista, na aldeia de Rossas, freguesia de Ferreirim. Muitas dores de barriga me causou a bem-dita! Depois da escola, que aí frequentava (a partir da 3ª classe), o pé e os ramos da magnífica árvore eram o palco das nossas brincadeiras fantásticas; não estranhando, portanto, que a coitadinha sofresse devastadores ataques aos seus frutos muito antes de estes estarem devidamente aptos para consumo, mal apresentassem alguns laivos de cor. Recordo-me com muita saudade da cor verde clareado das suas folhas sob a luz intensa da Primavera, que associo à inocência livre da minha infância.
.
Mais recentemente, sempre que passo por terras durienses de visita à minha mãe, tenho como ritual comprar - caríssimas - as primeiras cerejas que aquelas encostas belíssimas e duras nos dão, e que se vendem ao longo da N101 entre o Alto de Cavalinho e a Régua. Deliciosas! A Liliana, a minha esposa, confessa contrair-se-lhe o coração sempre que vê uma Cerejeira de ramadas cheias, o que, tendo em conta o número extraordinário de exemplares por que passamos até Tarouca, lhe aumenta vertiginosamente a pulsação e a gula!
.
Muitos ainda não terão tido o privilégio de ver um cerejal em flor. É uma visão confrangedoramente bela - a fragilidade da flor é tal (só duram uma a duas semanas, se não houver muito vento), que parecem algodão sobre as árvores. Para quem queira desfrutar da experiência e possa fazê-lo, há um trajecto lindíssimo e absolutamente inesquecível entre Lamego e Resende, via aldeia de Avões e S. Martinho de Mouros, pela encosta noroeste da Serra das Meadas, com vistas magníficas sobre o serpentear do Rio Douro. A foto que se segue foi tirada perto da lindíssima vila de S. Martinho de Mouros, há 2 anos atrás. Aqui encontrarão, na altura certa (que varia consoante as condições do clima), geralmente com os prenúncios da Primavera, um espectáculo inesquecível.
.

Esta flor tão delicada e efémera é (apropriadamente, direi eu) o símbolo da felicidade no Japão; e a sua flor nacional. O chá de pétalas de Sakura (flor de Cerejeira) é utilizado durante os rituais de casamentos e nas ocasiões festivas. Para os antigos samurais, perder a vida em batalha num campo coberto de pétalas de cerejeira era a maior glória possível (não me recordo se na cena final de O Último Samurai o que vemos a cobrir o campo de batalha são pétalas de flor de Cerejeira, mas é provável que sejam). Esta simbologia delicada e lindíssima do país do sol nascente não terá paralelo em Portugal. Por cá, infelizmente, temos apenas os habituais festivais da cereja de Resende e do Fundão, regiões onde este fruto tem um potencial económico muito importante. Para além de algumas aplicações culinárias ou afins, como a mezinha para o afrontamento digestivo da avó da Liliana: cerejas estagiadas em aguardente!

Por isto tudo me confrange imenso ouvir falar da madeira de Cerejeira e da sua excepcional qualidade como matéria prima da indústria florestal e madeireira, como se o produto se pudesse sobrepor à árvore. Como é um espécime de crescimento rápido e de tronco direito, já se vê que desperta cobiçosos interesses. Mesmo sabendo-o inevitável, custa-me sacrificar meio quilo de cerejas acabadas de colher pelo fresquinho da tarde por um móvel polido e brilhante.

Mesmo que esse meio quilo de cerejas me faça passar o resto do dia na casa de banho - pois poucas coisas há tão supinamente deliciosas. Viva a Cerejeira e a cereja!

Montanha Mágica

Instantes


Agosto de 2006
Aristot, Pirinéus Aragoneses
.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Tosco Tapas

Aqui Bem Se Come!
Guia para o bom garfo e a carteira leve
.
Para quem se encontre na Foz do Porto e tenha como lema o subtítulo desta rubrica, o Tosco Tapas é uma hipótese a considerar.
.
Ambiente agradável e muito limpo, embora com pouca luminosidade - e a que havia, em tons carmim. Música chill out no volume adequado. Serviço muito simpático e eficiente, com trato familiar.
.
Mas o que mais nos importa: escolhemos picanha laminada com acompanhamento de batata frita. Simples e rápido, como se queria. As lâminas vieram passadas no ponto e temperadas com alho e sal (dispensava-se o alho, mas não estavam mal). As batatas vinham pouco fritas em palitos fininhos, com algum excesso de óleo. Tudo precedido das indispensáveis azeitonas (muito boas, temperadas em alho) e uma pasta de atum caseira com algum excesso de cebola picada. Para lhes fazer companhia, vieram umas tostinhas saborosas. Acompanhei tudo com um alentejano muito razoável (não me lembro do nome) servido a copo. Bom hábito, este - irrita-me solenemente ter que pagar pelo que não vou beber.
.
De sobremesa, provei a fatia de bolo de bolacha que a minha esposa escolheu. Bastante boa e inédita para nós, pois é uma especialidade de mãe e respectiva nora. Este, o do Tosco Tapas (porque do caseiro, nem vos falo!), vinha feito com bolacha crocante e chocolate em creme. Como já se disse, estava bom, embora, como me costuma suceder com todas as doçuras, enjoativo à terceira abocanhadela.
.
O tombo ficou-nos por quase 10 euros cada comensal. Razoável. Digamos que o Tosco Tapas não se revelou desajeitado.
.
À mesa: o Viandante e a Liliana e a Ana Paula e a Juliana.
Avaliação: 6/10
.