domingo, 21 de janeiro de 2007

A Insustentável Leveza do Segredo

Palavra Esparsa
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Se a qualidade de uma democracia se pudesse medir pelo seu peso, Portugal seria campeão mundial de pesos-pluma - país sem rival. Um país sem segredos é um país sem peso (económico, político, civilizacional...); é uma folha caída è mercê de todas as tempestades. É, numa palavra, vulnerável; e, por isso, de muito pouca confiança. Como uma menina de mini-saia, carece de mistério, de interesse - por muito atraente que aparente ser. Mais, para além de não transmitir seriedade, é ridículo.
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Portugal é um país ridículo.
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É a única conclusão que podemos extrair do que se passou esta semana: o excelentíssimo Procurador Geral da República diz não ter solução para o problema do segredo de justiça; e di-lo perante as câmaras de televisão, com uma leveza extraordinária - quase com um sorriso nos lábios. Disse-o como se fosse um facto consumado. E por isso, sem surpresa, foi divulgado na internet o Despacho que reabre o processo Apito Dourado. Mais um acto da lusa comédia.
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Um país que não é capaz de manter sustentadamente o segredo de justiça é um país insustentavelmente leve.
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Nota: acredito na sinceridade de Pinto Monteiro e nas suas boas intenções, mas, lamentavelmente, das suas palavras só podemos tirar duas ilacções:
- não é ou não se sente capaz de resolver o problema do segredo de justiça, e como tal devia dar o lugar a outro;
- acreditando ele próprio no que disse, não o devia ter verbalizado em público, pois pareceu legitimar a existência do problema.
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sábado, 20 de janeiro de 2007

As palavras são assim...

Lido e Relido
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As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos...
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José Saramago
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in Ensaio sobre a Cegueira, Caminho, 8ª Edição, p. 267.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Por uma Malga de Vinho

Vinhateiro
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Hoje, mais uma vez, almocei no restaurante A Floresta. Para quem não leu um post anterior, sito na vila de Arcos de Valdevez - certamente uma das mais bonitas do nosso Portugal (mas isso são outras andanças...).
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Gosto de almoçar na "planta baixa" d'A Floresta - uma sala com ares de casa de pasto: vigas de madeira no tecto, serviço saloio (sem carácter depreciativo), clientela de todos os estratos sociais.
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A sala estava cheia, pelo que a dona do estabelecimento me convidou a partilhar a mesa com outro comensal. Excelente! - pois não quero parecer morto, como o é, segundo Jean Baudrillard (ver post de 9 de Janeiro), todo aquele que come sozinho.
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O meu conviva era meu homónimo - soube-o pelo tratamento informal de que foi alvo por parte da patroa. E pela aparência, certamente trabalhador da construção civil. Pediu vinho tinto maduro; pedi uma cerveja - apetecia-me, como se estivesse no verão. Trouxeram-me a Sagres de lei, mas, como seria de esperar num estabelecimento do povo, não me mudaram o copo de serviço - vidro para toda a bebida. Pedi de imediato um copo de fino, obviamente.
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E como o silêncio entre dois comensais é contranatura, eis o móbil para a conversa que se seguiu - a que se juntou, minutos depois, um terceiro parceiro de talher: que copo ou recipiente para que bebida?
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A conclusão maravilhosa a que chegámos, e razão de ser deste post: o vinho verde tinto deve ser bebido numa malga.
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Temos dito!
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Concordaríamos em acrescentar: a ser verde tinto, que seja da casta Vinhão.
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Apontamento final: a este propósito, lembrei-me agorinha mesmo de um comentário de um aluno meu no ano lectivo transacto - qualquer coisa no género: "em minha casa só bebemos vinho em malgas; uma malga para dois; bebo da malga do meu pai, que está à minha frente; e a minha irmã da da minha mãe." Para alguns, ainda é assim no Alto Minho - para o bem e para o mal!
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Password

Cartoonices


- Criar uma nova palavra-chave?
- "Pénis".
- Desculpe! A sua palavra-chave não é suficientemente grande.
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Fonte desconhecida.
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terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Vandalismo na Praça de Lisboa

Palavra Esparsa



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Estava ontem empenhadamente a almoçar um arrozinho de cabidela de lei no restaurante A Floresta, em Arcos de Valdevez (onde se come sempre maravilhosamente por apenas 6 euros!!! Pois é - uma das muitas vantagens de viver no "campo"), quando ouço, de costas voltadas para o televisor, no noticiário da TVI, que A Praça de Lisboa, em pleno centro histórico do Porto, tinha sido completamente vandalizada.
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Esta fotografia da Praça de Lisboa foi tirada por mim do alto da Torre dos Clérigos, em 1992. No centro da Praça pode-se ver a estrutura que albergava um restaurante Pizza Hut (onde, no final desse mesmo ano, um conjunto de bons amigos se despediu de mim na véspera da partida para Bristol, Inglaterra, onde viria a passar uma temporada ao abrigo do programa Erasmus); ao lado, a esplanada do Café na Praça (creio que era este o seu nome), um Café-Restaurante trendy onde muitas vezes lia o jornal ao sábado à tarde e onde me lembro de ter passado muitos e bons momentos em tertúlia ou agradavelmente acompanhado.
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Terá sido por volta de 1995-96 que a praça começou a "morrer", quando algumas das lojas que aí se instalaram começaram a fechar. Outras abriram, mas sempre por pouco tempo, e nunca ocupando todos os espaços comerciais disponíveis. Desde então, já não vivendo no Porto, passei por lá muito poucas vezes e espaçadamente. A degradação do espaço tornou-se evidente de ano para ano, sobretudo pela falta de presença humana (creio que ainda terei jantado no Pizza Hut em 2002) - o que é difícil de compreender, estando esta tão bem situada; para quem não conhece, junto à Torre dos Clérigos, à belíssima Livraria Lello, à Praça dos Leões, ao Jardim da Cordoaria...
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Soube, há algum tempo atrás, do interesse da Federação Académica do Porto em aproveitar aquele espaço para criar um "Polo Zero" - creio que um espaço multifuncional para a comunidade académica, de estudo e lazer. Como onde há estudantes, há vida, e aquilo já tresanda a cadáver há muito, francamente, não sei do que estão à espera. Para mais, quando os novos polos da universidade afastaram os estudantes do centro da cidade.
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Quanto aos actos de vandalismo que me distaíram da saborosa perninha de frango, só se pode dizer que nada mais haveria a esperar. Quando se tratam os comportamentos proto-criminais com a leveza que a nossa sociedade lhes atribui, é bem feito. E como se costuma dizer, a feira ainda vai no adro - infelizmente. E outra: enquanto houver crime sem castigo, é isto que teremos.
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E como se não bastasse, ao chegar a casa para jantar (seria para me estragar o repasto nocturno?), também ouvi (na TSF) o nosso Procurador Geral da República dizer - creio que numa Comissão da Assembleia da República - que não tinha solução para o problema do segredo de justiça. Não tem solução? Então que ALGUÉM tenha!!!
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Para não me ir deitar com azia, recordo com agrado o almoço de despedida para Bristol no Pizza Hut da Praça de Lisboa. Bons tempos, bons amigos. Gostava de poder estar convosco mais vezes.
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Soleira

Instantes
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Agosto de 2005
Santillana del Mar, Cantábria
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Defesa de Peter Huchel ou Critério

Poema do Mundo

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Também ao verso é vedado
ser mais leve
que o seu peso

Reiner Kunze

Tradução de Luz Videira e Renato Correia, in Reiner Kunze, Poemas, Paisagem Editora, 1984

Nota: Peter Huchel foi um poeta proscrito das autoridades da antiga República Democrática Alemã, de que Reiner Kunze também era cidadão.
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Verteidigung Peter Huchels oder Kriterium
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Auch dem vers ist's versagt,
leichter zu sein
als sein gewicht

domingo, 14 de janeiro de 2007

Flags of Our Fathers, de Clint Eastwood

Palavra Esparsa
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Erguer da Bandeira em Iwo Jima


Ontem à noite tivemos a oportunidade de nos juntarmos a um grupo de amigas para assistir a uma sessão de cinema no Braga Parque. Por sugestão do grupo, vimos As Bandeiras dos Nossos Pais, de Clint Eastwood.
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Ao chegar ao átrio das salas de cinema, procurei o painel do filme: uma foto de dois soldados em contraluz, à entrada de um bunker. O título em Inglês chamou-me a atenção de imediato (não o conhecia): Flags Of Our Fathers. Por duas razões em particular: a ausência do artigo definido The, antes do substantivo Flags - de todo plausível; e, mais estranha, a opção pela construção of, em detrimento do genitivo (Our fathers' Flags, que seria mais expectável). Para quem não domine a nomenclatura linguística (o que é que este tipo está para aqui a dizer!) ou tenha conhecimentos mínimos da língua inglesa, não farão muito sentido estas observações. Mas podem crer que a tradução do título em português não faz jus ao original (da obra de James Bradley e Ron Powers, com o mesmo nome, de que foi adaptado o filme). Todavia, devo dizer que me parece ser difícil fazer melhor. É um dos tais casos em que os significados não são reproduzíveis em síntese - daí a singular riqueza das línguas. Em suma: o título original enfatiza o conceito os nossos pais e relativiza o conceito bandeiras - e inclusivé o seu carácter atributivo. O título em português parece reforçar este carácter atributivo (as bandeiras são dos nossos pais) e enfatiza o conceito as bandeiras, sobretudo pelo uso do artigo definido. E o mais importante é que esta diferença é da maior relevância quando visualizamos o filme.

E o filme?, perguntam-me vocês.
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Será suficiente dizer que o enredo tem como leit motiv a famosa (e controversa) fotografia tirada na Batalha de Iwo Jima, durante a Segunda Guerra Mundial, que introduz este post. E que uma fotografia em si pode contar uma história; mas que o mais extraordinário deste filme (e do livro, obviamente) é a história que se pode contar à volta de uma fotografia. E que talvez pudéssemos descrever o filme como um ensaio sobre o poder da imagem; ou sobre a hipocrisia do poder político; ou os traumas de guerra; o conceito de herói; a amizade...
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Vejam o filme! Clint Eastwood e o Óscar para Melhor Filme parecem andar de mãos dadas.
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sábado, 13 de janeiro de 2007

A Rede

Cartoonices

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- Atenção! Está cercada! Saia com as mãos no ar!
- Policiar esta internet não vai ser fácil.
- Meu sargento! Acho que temos uma pista!
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Fonte: The European, 16/04/1997
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sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Perninhas de Frango com Vinho do Porto

Vianda
De minha lavra
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Temperem-se oito perninhas de frango (ou quaisquer outras partes da saborosa ave) com uma hora de antecedência: algumas pedras de sal, meia colher de chá de caril, outra meia de colorau, pimenta preta moída no momento, uma amostra de piri-piri, dois alhos pequenos muito bem picados, uma folhinha de louro partida em pedacinhos, um fio de azeite e meio limão pequeno. Ah! E que não lhes falte uma mão cheia de carinho.
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A frigideira deve ir ao lume com meia parte de azeite e meia de margarina. Apenas o suficiente de cada. Juntemo-lhes as perninhas (com todo o seu tempero) e tape-se a frigideira com um testo durante a fritura, só o retirando para ir virando o frango; em lume brando (sempre lume brando) até se retirar o pitéu - porque não podem ficar tostadas sem que cozam devidamente.
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E o Vinho do Porto?
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O xeque-mate requer paciência. Entretanto, podem saborear um cálice da divina bebida - até porque abre tão bem o apetite...! Guardem apenas uns borrifos para o último minuto: sobre as perninhas, como se de uma bênção se tratasse. Virem-se e revirem-se. E está pronto. Apenas num minuto.
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E que bem sabem. Tanto, que pouco interessa a companhia. Arroz de espinafres? Umas fatias de pão de centeio? - Pão de centeio do bom, sim!
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E um bom vinho tinto maduro, claro.
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Bom apetite!
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P.S. Pensei em mostrar-vos uma fotografia do pitéu, mas arriscavam-se a babar o teclado do computador - o que seria um desperdício!